Parte 3 
 (alguns poetas traduzidos por        Paulo Mendes Campos)

          Poesias de Paulo Mendes Campos - Parte  2 

   

                                                                                                                                                                       

NESTE SONETO

 

Neste soneto, meu amor, eu digo,  
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga,  
Que muita coisa bela o verso indaga  
Mas poucos belos versos eu consigo.  
Igual à fonte escassa no deserto,  
Minha emoção é muita, a forma, pouca.  
Se o verso errado sempre vem-me à boca,  
Só no peito vive o verso certo.  
Ouço uma voz soprar à frase dura  
Umas palavras brandas, entretanto,  
Não sei caber as falas de meu canto  
Dentro de forma fácil e segura.  
E louvo aqui aqueles grandes mestres  
Das emoções do céu e das terrestres.  

 

              
 
 
 

CAMAFEU

 

A minha avó morreu sem ver o mar. Suas mãos, arquipélago  de nuvens,  
Matavam as galinhas com asseio; o mar também dá sangue  quando o peixe  
Vem arrastado ao mundo (o nosso mundo); no entanto no mar  é muito diferente.  
As gaivotas, mergulhando, indicam o caminho mais curto entre  dois sonhos  
Mas minha avó era feliz e doce como um nome pintado em uma barca.  
Sua ternura eterna não temia a trombeta do arcanjo e o Dies lrae 
Sentada na cadeira de balanço, olhava com humor os vespertinos.  
Sua figura pertenceu à terra, porém o mar, rainha impaciente,  
0 mar é uma figura de retórica. No porto de Cherburgo, há muitos anos,  
Ouvi na cerração o mar aos gritos, mas minha avó jamais ergueu a voz:  
Penélope cristã, enviuvada, fazia colchas de retalhos fulvos.  
0 mar é uma louça que se parte contra as penhas, enquanto minha avó  
Fechava a geladeira com um jeito suave, anterior às geladeiras.  
Igual ao mar, os dedos da manhã a despertavam num rubor macio;  
Pelo seu corpo quase centenário a invisível vaga do sol se espraiava,  
A carne se aquecia na torrente dos constelados glóbulos do sangue,  
As pombas aclamavam outro dia da crônica do mundo (o nosso mundo)  
E de uma criatura que se orvalha em suas bodas com a terra dos pássaros  
Matutinos, das frutas amarelas, da rosa ensangüentando de vermelho  
0 verde, o miosótis, o junquilho, e em tudo um rumor fresco de águas novas,  
Um verdejar de abóboras, pepinos, um leite grosso e tenro, e minha avó  
Com tímida alegria indo, vindo, a prever e ordenhar um dia a mais,  
Assim como as abelhas determinam mais 24 horas de doçura.  
E enfim no litoral destes brasis, o mar afogueado amando a terra  
Com seu amor insaciável, dando um mundo ao mundo (o nosso mundo)  
E a gravidade intransigente do mistério. Mas minha avó morreu sem ver o mar. 


 

  

    

          BALADA DO AMOR PERFEITO

Pelos pés das goiabeiras,
pelos braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,

         fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
        fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cinerárias,
        fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
        fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
        fui te avivando.

Me evadindo das molduras
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
        fui me virando.

Pela rosa e o rosedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
        fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
        fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos,
pelo caule dos gemidos
        fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
        fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
        fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
        fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
        fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
        fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
       fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares,
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
        fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pela flor que se desata,
pela lélia purpurata,
        fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
        fui te deixando.  

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
        fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
       Vou te buscando.




 

 EPITÁFIO

 

Se a treva fui, por pouco fui feliz.  
Se acorrentou-me o corpo, eu o quis.  
Se Deus foi a doença, fui saúde.  
Se Deus foi o meu bem, fiz o que pude.  
Se a luz era visível, me enganei.  
Se eu era o só, o só então amei.  
Se Deus era a mudez, ouvi alguém.  
Se o tempo era o meu fim, fui muito além.  
Se Deus era de pedra, em vão sofri.  
Se o bem foi nada, o mal foi um momento.  
Se fui sem ir nem ser, fiquei aqui.  

Para que me reflitas e me fites  
estas turvas pupilas de cimento:  
se devo a vida à morte, estamos quites.  

 


  
 


 
 

TESTAMENTO DO BRASIL 

Que já se faça a partilha.  
Só de quem nada possui  
nada de nada terei.  
Que seja aberto na praia,  
não na sala do notário,  
o testamento de todos.  
Quero de Belo Horizonte  
esse píncaro mais áspero,  
onde fiquei sem consolo,  
mas onde floriu por milagre  
no recôncavo da brenha  
a campânula azulada.  
De São João del-Rei só quero  
as palmeiras esculpidas  
na matriz de São Francisco.  
Da Zona da Mata quero  
o Ford envolto em poeira  
por esse Brasil precário  
dos anos vinte (ou twenties),  
quando o trompete de jazz
ruborizava a aurora 
 
cor de cinza de Chicago.  
Do Alto do Rio Negro  
quero só a solidão  
compacta como o cristal,  
quero o índio rodeando  
o motor do Catalina,  
quero a pedra onde não pude  
dormir à beira do rio,  
pensando em nós-brasileiros  
- entrelaçados destinos -  
como contas carcomidas  
de um rosário de martírios.  
De Lagoa Santa quero  
o roxo da Sexta-feira,  
quero a treva da ladeira,  
os brandões da noite acesa,  
quero o grotão dos cajus,  
onde surgiu uma vez  
no breu da noite mineira  
uma alma doutro mundo.  
Da porta pobre da venda  
de todos os povoados  
quero o silêncio pesado  
do lavrador sem trabalho,  
quero a quietude das mãos  
como se fossem de argila  
no balcão engordurado-.  
Ainda quero da vila  
ira que se condensa,  
dor imóvel e dura  
como um coágulo no sangue.  
Da Fazenda do Rosário  
quero o mais árido olhar  
das crianças retardadas,  
quero o grito compulsivo  
dos loucos, fogo-pagô  
de entardecer calcinado,  
a névoa seca e o não,  
o não da névoa e o nada.  
Da cidade da Bahia  
quero os pretos pobres todos,  
quero os brancos pobres todos,  
quero os pasmos tardos todos.  
Do meu Rio São Francisco  
quero a dor do barranqueiro,  
quero as feridas do corpo,  
quero a verdade do rio,  
quero o remorso do vale,  
quero os leprosos famosos,
escrofulosos famintos, 
 
quero roer como o rio  
o barro do desespero.  
Dos mocambos do Recife  
quero as figuras mais tristes,  
curvadas mal nasce o dia  
em um inferno de lama.  
Quero de Olinda as brisas,  
brisas leves, brisas livres,  
ou como se quer um sol  
ou a moeda de ouro  
quero a fome do Nordeste,  
toda a fome do Nordeste.  
Das tardes do Brasil quero,  
quero o terror da quietude,  
quero a vaca, o boi, o burro  
no presépio do menino  
que não chegou a nascer.  
Dos domingos cor de cal  
quero aquele som de flauta  
tão brasileiro, tão triste.  
De Ouro Preto o que eu quero  
são as velhinhas beatas  
e a água do chafariz  
onde um homem se dobrou  
para beber e sentiu  
a pobreza do Brasil.  
Do Sul, o homem do campo,
matéria-prima da terra, 
 
o homem que se transforma   
em cereal, vinho e carne.  
Do Rio quero as favelas,  
a morte que mora nelas.  
De São Paulo quero apenas  
a banda podre da fruta,  
as chagas do Tietê,  
o livro de Carolina.  
Do noturno nacional  
quero a valsa merencórea  
com o céu estrelejado,  
quero a lua cor de prata  
com saudades da mulata  
das grandes fomes de amor.  
Do litoral feito luz  
quero a rude paciência  
do pescador alugado.  

Da aurora do Brasil  
- bezerra parida em dor -  
apesar de tudo, quero  
a violência do parto  
(meu vagido de esperança). 


                                   Klaus Reis Novaes