Poesias de  Paulo Mendes  Campos - Parte 1      

                                               Parte 2


 

MOSCOU-VARSÓVIA 
 
(26 MAIO 1956)  

Se este avião caísse, crispado entre os ouros, as copas e as espa-  
das eu ficaria; sarrafos nas pálpebras, para que se manti-

vessem abertas durante o incêndio, colocaria;  
Se este avião caísse, as madrugadas de meu filho de um terror 

violeta se elucidariam; na tarde calcinada, a sombra de  
minha mulher se inflamaria; minha filha não me encontraria  
deitado sobre o feno, escondido atrás da porta, acima dos  
cataventos com os braços carregados de bonecas; mais do 
 
que a minha garra em um livro e um lírio não encontraria;  
um gesto no espelho, uma espátula de osso, um pensamento;  
Se este avião caísse, em uma esquina de Ipanema, eu nunca  
mais esperaria;  
Se este avião caísse, só uma pessoa não diria "que pena" (a que  
caía e se esquecia e se consumia, e só se libertaria quando  
de todo caísse e se esquecesse e se consumisse);  
Se este avião caísse, de mim o firmamento em torvelinho se 
 
afastaria; os mortos da Lituânia e da Masuria a mim viriam,  
e no silêncio rodeado de verdura me receberiam; soldado  
quase desconhecido, mãos desligadas do corpo - exangues  
e sem armas - ah, a terra de ninguém eu atravessaria;  
Se este avião caísse, de arquitetar a condição da criatura um  
arquiteto a mais desistiria; certo de que outros chegarão a  
construir a humana arquitetura (o que se faz há muitos  
anos e se fará em um dia); pousado sobre o meu peito, o  
pássaro cruento do meio-dia; o criptógrafo egípcio afinal se  
explicaria; em fragmentos candentes, a minha carne emi-  
graria; espantalho em farrapos, só o vento de leve me  
espantaria;  
Se este avião caísse, sob as arcadas do pátio a poça de sal  
se extinguiria; a minha túnica amarela entre os anjos se  
sortearia; sob as telhas dos dragões dourados, os seus flocos,
indiferente, a paineira sacudiria; na colina resplendente, 
 
quem soubesse ler, leria: "aqui pousou uma criança que  
quase nada compreendia"; até que outra morte nos separe,  
o meu nome no tronco se resignaria;  
Se este avião caísse, este papel em cinzas arderia; a estrela rubra  
do poema nenhum jornal publicaria; fosse cair daqui a pou-  
co, ainda assim o escreveria; a vida e a morte são as aman-  
tes, são a esposa, da poesia;  
Se este avião caísse, os meus vizinhos compreenderiam; lembran-  
do-se dos meus cabelos no elevador, uma intuição qualquer  
no ar lhes diria que só não fui um amigo por falta de tempo  
ou covardia; mas pode alguém perfeitamente amar o seu  
vizinho se apenas, grave, pela manhã lhe diz "bom dia";  
e então, sentimentais e sem razão, de mim, coitados, se apie-  
dariam; e de se sentirem tão sensíveis, em fino prazer espi-  
ritual tudo (de mim) enfim se acabaria;  
Se este avião caísse, a música de meu apartamento ensurdeceria;  
os volumes nas estantes, de já não ter quem os lesse como  
eu os lia, pardos e fechados ficariam; outros mais sábios  
vir e servir-se poderiam; mas o meu jeito de ler e pensar
desapareceria; no entanto, se este avião caísse, daquilo que 
 
é apenas meu a orgulhar-me não chegaria;  
Se este avião caísse, já ninguém mais meditaria na ave que  
passou gemendo contra o vento na bruma fria; o segredo  
que não cheguei a tocar a ninguém mais preocuparia; só  
se a meu filho legasse a vocação da tristeza e o heroísmo  
da alegria;  
Se este avião caísse decerto me compadeceria dos que caíssem  
comigo sem a coragem da poesia; embora talvez fosse eu  
quem mais saudades levaria; poentes roxos de Minas,  
praias aéreas da Bahia; chapéu de palha de Leda, olhos  
castanhos de Lília; pubescência de Teresa, experiência de  
Maria; prosadores da Irlanda, poetas de Andaluzia;Iang-  
tsê em Nanquim, das Velhas em Santa Luzia; Etna fume-  
gando em Taormina, em Sienna a Piazza della Signoria;  
manhãs de iodo na praia, noites etílicas de boemia; bailari-  
nas de Leningrado, gaivotas da Normandia; sorriso da  
menina, do menino a euforia; Wagner compondo o Parsifal,
Nietzsche uivando em Sils Maria; a mulher que foi comigo, 
 
a que não foi mas iria; tantas que, mais houvera, para que  
de vez caísse, pediria;  
Se este avião caísse, com ele cairia um homem que pelo menos  
entenderia a fábula da folha que se desprendeu e desapare-  
cia; e assim seu coração, na terra, no mar e no céu, como  
de triste e maduro caísse, não se surpreenderia, nem recla-  
maria; pois esse aflito coração, de ter amado e sofrido, na  
amplitude da morte se conformaria;  
Se este avião caísse, em um domingo azul um peixe até a  
 pedra nadaria; não encontrando o meu anzol, ao alto-mar  
 regressaria; desse desencontro tecido de tão lindos equí-  
 vocos, a sua carne se salvaria; e o domingo azul do mar  
 ainda mais azul reluziria. 


 
  
 
 
 

MURO, JARDIM, PAI  
  

DEPOIS DO MAL NOTURNO, UM SOL PROFUNDO  
É A CASA DE MEU PAI NO FIM DO MUNDO.  
APARECE 0 PAI, MAS DESAPARECE,  
E 0 DOM DE SEU OLHAR NOS AMANHECE.  
  

POR ESTA LUZ QUE VAI E NÃO SE ESVAI,  
PELO JARDIM ESCURO, CLARO, ESCURO,  
A GLÓRIA DE MEU PAI ENTROU NO MURO.  
NA GLÓRIA DESTE MURO ESTÁ MEU PAI.  

EXILADO NA GLÓRIA, 0 PAI ME ESPIA  
DA IRA EM QUE SE ACABA A LUZ DO DIA,  
E A LUZ DE SEU OLHAR, QUANDO ANOITECE,
DESAPARECE, MAS REAPARECE. 
 
  

E, APARECENDO E DESAPARECENDO,  
OS FIOS DESSE OLHAR ME VÃO TECENDO. 




  

 


POEMA DIDÁTICO 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo  
Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.  
Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,  
Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.  
No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,  
Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,  
Morto de meu próprio pensamento, destruí-me,  
Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me.  
Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,  
Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria  
Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,  
E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.  
Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,  
Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio  
E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?  

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante  
Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio  
Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.  
Cansei-me de ser visão: agora sei que sou real em um mundo real.  
Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse,  
E  não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia -  
E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica -  
E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.  

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?  
0 mundo, companheiro, decerto não é um desenho  
De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)  
Mas um desencontro de frustrações em combate.  
Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem  
– cabeça, tronco, membros, aspirações a bem-estar– 
 
E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.  
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética  
Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa  
Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.  
0 mundo nasceu das necessidades. 0 caos, ou o Senhor,  
Não filtraria no escuro um homem inconseqüente,  
Que apenas palpitasse ao sopro da imaginação. 0 homem  
É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo  
Se podemos admiti-lo – não se redimo em injustiça.  
Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo  
Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram -  
É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,  
Quando ainda me perturbava a flor e não o fruto,  
Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,  
Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,  
Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,  
A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.  
Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento  
De todos: se multipliquei a minha dor,  
Também multipliquei a minha esperança. 



 
  
 

  

O VISIONÁRIO

All that I am I am not. 
             STEPHEN  SPENDER 

Debaixo dos lençóis, a carne unida,  
Outro alarme mais forte nos separa.  
Vai ficar grande e feia a mesma cara  
Com que surgimos cegos para a vida.  
Vemos o que não vemos. Quando, erguida  
A parede invisível, o olhar pára  
De olhar, abre-se além uma seara  
Muito real porém desconhecida.  
São dois mundos. Um deles não tem jeito:  
Cheio de gente, é só como o deserto,  
Duro e real,  parece imaginário.  
Também dois corações temos no peito  
Mas não sei se o que bate triste e certo  
Vai reunir-se além ao visionário.

 


 
 
  
 

 

    PESQUISA

            
Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.
                                  Novalis


   
A gaivota determinada mergulha na água
    Verde. Há um tempo para o peixe
    E um tempo para o pássaro
    E dentro e fora do homem
    Um tempo eterno de solidão.
    Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
    Vi espaços claros, bosques, igapós,

   
O sumidouro de um tempo subterrâneo
    (Patético, mesmo às almas menos presentes)
    Vi, como se vê de um avião,
    Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
    A estrada amarela, rio barrento e torturado,
    Tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.

    Senti o hálito do tempo doando melancolia
    Aos que envelhecem no escuro das boites,
    Vi máscaras tendidas para o copo e para o tempo,
    Com uma tensão de nervos feridos
    E corações espedaçados.
    Se acordamos, e ainda não é madrugada,
    Sentimos o invisível fender o silêncio,
    Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
    Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
    O tempo goteja
    Como o sangue,
    Os cães discursam nos quintais, e o vento,
    Grande cão infeliz,
    Investe contra a sombra.

    O tempo é audível; também, se pode ouvir a eternidade.

 


  
 


OS DOMINGOS  

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança.
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.