Da antologia “41 poetas do Rio”, organizada por Moacyr Félix  ( Funarte, 1997)


 

 

     


MILENA BAUL  
. reprodução de mini-quadro, 1999.



 

TRAJETÓRIA

              Alexei Bueno
 

Onipresente
Melancolia
Que entre a alegria
Sorris prudente.
Sombra latente
À luz do dia,
Mudez  sombria
Que  o som pressente.
Por te vencermos
Percorreremos
Longínquos ermos,
Lá dançaremos
E expiraremos
Sem te esquecermos.

26.4.1989
 

 



 
 

DAS DUAS  UMA

                      Ângela Melim

                      Para Ana C.
 

Uma das suas.
Suave lembrança ensina. Não vou morrer até o fim.
Der e vier de garras afiadas, dentes na mão.
Seu livro solta folhas enquanto leio um poema
Chupadon –
Você disse isso.
Mais doce na manga o coração: duas antigas.
Antigamente, eu me sentia mais nova do que sou.
Isto me faz lembrar outra frase à porta da igreja.
Esta casa qualquer coisa assim
aqui está para todos os homens.
To see, to rest, to pray.
E eu também nem nada.
Morri sem saber quem são os  3.
Mas os outros grandes ... descobri! São
reticentes.
é você
que está ali de roupa clara sorrindo ou fingindo ouvir?
Alguns estão dormindo de tarde.
Coisa ínfima,
quero ficar perto de ti .
 

 



 
 

MARGEM

              Antônio  Carlos  Secchin
 

Vou andando para a beira desse porto,
entre cheiros de cigarra e de sardinha
E um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber
a que distância um nome deixa de doer.
Teu nome, marcado em minha boca
como a polpa de uma pêra .
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto,
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em teu nome: gozo
de um poço tapado. Perfil de musgos
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de teu nome,
sílabas que batem contra os cacos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do ar.


 



 
 
 
COM ÓCULOS RIMBAUD

                           Armando Freitas Filho
 

Escrevo sob a luz entrecortada
das bombas que explodem
nas  águas da televisão.
Se não, estaria tudo escuro
aqui dentro.
E o branco desta folha, aí fora
neste barco livre
não seria alvo
dessas iluminações sobressaltadas .
 

Descrevo um clima com dois sentidos:
uma previsão do tempo de dentro
uma visão do tempo de fora
enquanto um e outro
numa estação de ferro
se comete, no tempo instável
com mão-caranguejo e muito tato
um crime
que é um anticlímax perfeito.


 



 
 
 
ABERTURA

                       Carlito  Azevedo
 

Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria .
 

 



 
 
 
PAPAGAIO

                Chacal
 
 

Estranho poder o do poeta ,
Escolhe entre quase e cais
Quais palavras lhe convêm.
Depois  as empilha papagaio
E as solta no céu do papel.
 

 



 
 
 
FEDERICO GARCIA LORCA

                          Cláudio Murilo Leal


Água com farolitos
a água
Federico.

Lua nos olivais
a lua
Federico.

Laranjas de ouro
laranjas
Federico.

Gitanos que cantam
gitanos
Federico.

Tua alma traída
a tua alma
Federico.

II

Federico, aonde vais?
– a Granada .

E a tua voz de jasmins ?
– amordaçada.
E tua fronte cigana
– assassinada.
 
       III

Ante a lua comovida,
cobre-se a cela de nardos,
sexta-feira da Paixão,
véspera do teu Calvário.
Um tremor de inquietos pássaros
paira em teus olhos cerrados
e um lençol de pesadelos
sobre teu corpo deitado.
O pensamento repousa
num romanceiro gitano
mas nas ruas de Granada
percorre um frêmito estranho.
um sino sem esperança
anuncia a madrugada.
Uma hora
(angústias e solidão)
duas horas
(as estrelas se escondem)
três horas
(cravos martirizados)
quatro horas
( a morte afia seus punhais)
cinco horas
(chora o regato e o rouxinol).
Levam-te por uma estrada
de espinhos e crocodilos
como uma pomba aprisionada,
às cinco da madrugada.
As Bestas galopando
às cinco da madrugada
em seu tropel de espantos
às cinco da madrugada.
E quando por ti perpassa
às cinco da madrugada
um calafrio das lâminas,
descerram-se todos os audários
e os lírios se enrubescem
às cinco da madrugada.
Às cinco da madrugada!
Eram as cinco em todos os relógios!
Eram as cinco nos campos de Granada!

IV

Federico assassinado
na branca areia de Espanha
e uma rosa andaluza
sobre lençóis de holanda.
Seu sangue espalha no ar
um leve olor de lavanda,
seus ossos se pulverizam
em estrelinhas de nácar
e um pranto entre os ciprestes,
poesia inacabada,
soluça os versos mozárabes
de um romance fantasma.
la guada civil caminera
a Federico levava:
ela, fome de pantera,
ele, orgulho de prata,
ela, veias insensíveis
e  olhos frios, sem alma,
apaga a luz das estrelas
no sangue da madrugada.
Mil pandeirinhos sossegam
Os  seus murmúrios de água.
Um anjo deita a cabeça
sobre uma alva almofada
e a Morte com dedos finos
toca a sua velha guitarra.
Por Málaga ou Córdoba,
ou por Sevilha ou Granada
vagueia como sonâmbula
uma voz assassinada.
 

 



 
 

 
GEOGRAFIA

                 Júlio Castañon  Guimarães
 

 

sombras ancestrais
claras manhãs
em que margem ?
ainda que a memória esbata as horas
o que há são espaços perdidos
uma casa
uma viagem
cabelos soltos em minhas mãos

 




 
 
 
TIÊ - SANGUE
 
             Leonardo Fróes

existe um passarinho vermelho tiê-sangue no mato
perto da situação casual de eu lembrar você e ele
aparecer subitamente ou passar como um raio levado
na abertura azul das duas folhas que um ventinho destrança .

existe um passarinho tiê-sangue que é a essência
da codificação deslumbrante desses momentos que passo
à busca búsqueda incompreensões largado
na liquidez completa de não contar com uma explicação para hoje. 

um  passarinho tiê-sangue  avançando
no balanceamento aqui das rodas crepusculares do acaso
que por acaso é o nome das circunstâncias que eu dou
à roda madrugadas tiê-sangue subindo
e balançando aqui no alto do morro como um passarinho.

existe uma infinita, uma fita imensurável, a quinta
pérola do alfabeto dentário do Cadmo plantando palavras
numa brincadeira atônita
de dizer que existem o Infinito e a Água.

um tiê-sangue bem bonito suspirado parando
como a atingir na ponta-do-galho o Momento Extremo.

 


 


 
 
 
O QUARTO EM DESORDEM

                                                    Marly de Oliveira

Tão fácil deixar o quarto assim
lenços roupas empilhadas
tênis papéis por todo lado
os livros do colégio um copo de água
mas um jeito de amar fala mais alto
e vai fazer a cama renovando os
lençóis é tão forte o calor dói
a coluna mas nem dói mais quando
sonolenta ela entra
e sorri sonolenta : um anjo
pousado um momento
no meu ombro ; agora a cama está sempre
feita o armário sempre arrumado ela
longe longe longe numa
moldura mais que perfeita e o
dia inteiro olho seu quarto os quadros
faz tanta falta aquela desordem
ela está lá e está aqui
dentro de mim
e quando sequer falamos
ao telefone  é como se nem
entre nós um oceano
houvesse como se nem.
 



 
 
 
ULISSES 
 
                Octávio  Mora

 

 

Ulisses em Ítaca, vivo ausente
Talvez seja resíduo da viagem ,
mas é tão pouco minha esta paisagem
que só posso estar longe desta gente:
Se foi minha, cortaram-na tão rente
que a memória mudou toda a folhagem –
falávamos idêntica linguagem
Falo agora linguagem diferente:
Vivo em Ítaca ausente: minha fronte
alargou-se, meus olhos são maiores,
e na memória trago outros países:
Contudo, já foi meu este horizonte,
já fui jovem aqui : olho arredores,
E vejo Ítaca ao longe, sem raízes.

 




 
 
 
POUR ELISE

             Paulo Henriques Britto
 

Música  banal dos sentimentos
caramelo barato que limpo dos meus dedos
com lenço orgulhoso quando enjôo,
eu te perdôo.

Música sentimental e atroz
das emoções gulosas e pueris
que não resistem ao assoar de um nariz,
eu te aplaudo, e peço bis.

Música vulgar e implacável do desejo,
Ah como eu te desejo.
 




 
 

ENIGMÓIDES

                 Sebastião Uchoa Leite
 
 

Espelho ao avesso
Sobre o abismo
Já sou mais isso
Do que eu mesmo
 

Reflexo antevisto
Do caos amórfico
Informe e vasto
Sonho maléfico