Poesia Brasileira Atual
Seleção de poemas: Amélia Alves
e Luís Sérgio dos Santos.



MILENA BAUL  
 . reprodução de mini- quadro, 1999.

                                                      .                                                                          

JAZZ FREE  SOMBALAIO

                                    Artur Gomes

                             
Para  Moacy Cirne

ouvidos  negros  Miles   trumpete  nos   tímpanos

era  uma  criança  forte  como  uma  bola de gude
era uma criança mole como uma gosma desgrude
tanto faz                            quem tanto não me fez
era uma abtiVersão           de                        Blues
nalguma night              noite uma só                vez .

ouvidos   black   rumo   premeditando  o  breque
sampa  midinight ou  aVersão de           Brooklin
não  pense  aliterações  em  doses         múltiplas
Pense sinfonia em rimas                              raras .
Assim quando despertas  do              massificado
Ouvidos  vais  ficando  dançarina               cara :
Ao ter-te Arte nobre minha  musa             Odara

Ao toque dos tambores ecos            subUrbanos
Elétricos negróides urbanóides                  gente
Galáxias reLances luzes sumos                pratos
Delícias de iguarias que algum                  Deus
                                                              consente
aos gênios dos infernos que ardem         gemem
                                                                     Arte
Misturas de comboios das tribos                mais
                                                             distantes
de múltiplas metades  juntas numa           parte



 

FEMENINAS

                     
Beatriz Escorcio Chacon

      Vontade de criar filho.Tudo fêmea.
Muitas fêmeas soltas de mim de avental.
         Vontade de largar sapato alto
            a teoria meia fina e carreira
            para ser toda eu criadeira.
            Meu quintal minhas crias
        um varal cheio de calcinhas.
    Um baú de anáguas engomadas
 penteadeiras e pulseirinhas.  Casa de meninas.
Nossa casa femenina com rendinhas no telhado
                guardará franjas e sianinhas
        uma cadela no portão . Tudo fêmea,
Bordados de rococó e margaridas rosinhas
             pra enfeitar minhas crias .
          Minhas crias sem pai nem avô
                 Terão nome de Maria
          Maria Clara da Graça da Lua
Maria do Parto Sem Dor Maria Alegria
             Maria Joana. Mariama.
           Nossa casa violeta-carmim
       toda aberta a todos os meninos
           que se quiserem meninos.
        Eles chegarão  de início devagarinho
tomar chá de hortelã achar graça das  xicrinhas...
    Muitos fêmeos em nosso sofá de estrelinhas.
            Vontade de criar filho.  Tudo fêmea
                       de não levar porrada
                        nem medos pra casa
                tudo fêmea de trocar respeito
                 sem vergonhas de usar laço .
            Vontade de parir fêmea  briguenta
                 sem remendo na costela
e soltar bando delas por Niterói Rio de Janeiro
       andorinhas pra criação de companheiros.
            Vontade de ser eu parideira
       me arreganhar por inteiro na lua cheia
             brotar fêmeas sonhadeiras
filhas naturais de poemas livres-comigo
arrebentando meu sonho meio corpete.

 

 



 

               O ÚLTIMO ÍNDIO DA GUANABARA

                                                  Bené Fonteles
 

O último índio da Guanabara
não é tamoio
nem tupinambá
e não flechou o santo padroeiro .

O derradeiro silvícola
sem causa e sem nenhuma culpa
já nem pode ser selvagem
e amar a re/floresta .

O único indígena carioca
não tem oca
           é oco
casca de bronze
                         arco e flechas
eternos tesos
                     apontam a morte
num desejo de caça que não voa.

O último aborígene
sem nação e cultura
não sabe que olhares ocasionais
nem desconfiam
                            qual artista o pariu.

Os inúmeros “selvagens” que passam
sem graça
                 sempre em cooper
confiam
              que ainda bem
ele é apenas uma escultura
que operários fundiram
com pés ferrados na pedra
margeando águas e peixes podres.
 

O derradeiro nativo da cidade desumana
será o único do sobrevivente
depois de exterminadas
as fontes sujas
                         as aves doentes
e a última tribo urbana ?
 
 

                          Ao Xico Chaves
                          Salvador, janeiro de 97.

 



 

 
 A CANÇÃO DOS AMANTES

                                        Brasigóis Felício
 

Pode ser que seja agora,
ou não será jamais. Provavelmente
está muito longe o instante
do prazer vital. Enquanto
não suceder
este supremo acontecimento
em nossas vidas flagradas,
e não explodir o milagre
nos gestos plenos e gastos,
jamais teremos
orgasmos completos.
E ao invés de Ser
profundos, como o que os olhos
vêem, uma vez libertos,
somos de câncer
ou de capricórnio.
Quando seremos
mais vastos que nós mesmos?
Esse destino trágico
de nor(destinados): amarras
do amor morto no gozo.

E para o amor fomos feitos:
por isto nascemos das mulheres
e depois disso
só houveram febres, e sentimentos.
É nosso destino
beber das tempestades.
Impotentes para o amor em nosso peito,
para o amor fomos feitos: morrer no desejo
com esse nó no peito.  

E mais os ossos,
sêmens, intestinos,
medo e bazófia
e perdas e degredos
e os milhões de cadáveres
de que somos feitos.

Ah! Esta hora miraculosa.
Não foi à toa que sobrevivi
a tantos desastres.
Do mesmo modo que Pessoa,
eu fico sempre à margem
de qualquer combate.
Campeão sexual, herói
para mim mesmo sonhando,
amante insabido
de todas as mulheres do mundo,
eu venho
gritando essas palavras
como um mudo
e se de alguma força me alimento
é dessa espera
de milênios que me leva.
Mas não. Permaneço à margem
de mim mesmo, com medo
de fitar a imensa face
do meu Ser multiplicado.


 



 
 
TAPETE   PERSA
 
                           Cláudio Aragão

Meu tapete da sala não é Persa .
Não me peça pra dizer sua procedência.
Sou do Ceará mas tenho cara de francês
criado no Brooklin , devorando Hegel
fumando charutos de Bertolt Brecht .

“Toda propriedade é um roubo.”
De cara com o século XXI
se eu pedir Reforma Agrária você me manda à merda ?
Gaia Ciência , Astrofísica, Quântica, Candomblé, Umbanda .
Me jogaram no feitiço via internet .
Chifre de bode gaulês, asa de morcêgo escocês
marafa, comida baiana
uma foto minha de óculos e camisa Jim Morrison.

Meu tapete da sala não é persa .
 

 




 
 

   

Conceição Albuquerque
 

Atrás de mim seguem coisas que não fiz ,
Papéis guardados, marcados de tempo e saudade .

À beira do cais espero .
Não há pés que me alcancem a solidão.

Ao dobrar a esquina cortei laços ,  me arrependi .
Os vestígios ficaram nas nódoas do lenço
Nas dobras da dor .

Esse nó tão apertado rouba-me o ar .
Quem terá a delicadeza de desatá-lo ?
 

 



 

 

AGORA

                         Dora Ferreira da Silva
  

 

Agora que no vagar dos pensamentos
chamo-te –pai– da estação da infância
como se pudesses voltar no rápido só para me embalar,
fecho os olhos dentro de tuas pálpebras.
És minha invenção de amor.  Olhos melancólicos
Os teus.  Eu contigo em degredo.
 

Difícil tomar a face desse segredo cada vez mias longe
E partir e também ficar, embora encontrada a chave da porta mais secreta.
Se eu pudesse dizer: seja a paisagem de seda azul
e o último sol fortíssimo do ocaso
– eu liberta enfim de tuas pupilas.
Um rio passaria  desenhando pela mão mais fina.  Passa uma
      [pluma apenas uma
no rio acordado.
 

 




 
 

( POEMAS SECRETOS I , II e III )

                                              Flávia  Savary

I

Que se distraiam teus pés
Em mil passeios .
E tuas mãos despenteiem águas
E tranças de heras .
Mas teus olhos , não .
Teus olhos estão
Sigilados em meus tesouros .

II

O segredo voa
Nas volutas
Do hálito do amado .
Estou presa
Da cadeia de seus lábios .
Mas ainda que se abrissem
Para dizer : “És livre”,
Escolheria ser triturada
Entre seus dentes .

III

Feito de madeiras nobres ,
Recende a canela a incenso.
Sua cabeleira de cobre ,
Elmo de comandante ,
Cavaleiro andante ,
Errante guerreiro
Lacrado
Em secretas fontes .

 


 



 
 

CORPO DE MULHER 

                                 Floriano  Martins
 

alvos  ramos de algas marinhas
rumores de alucinado cardume
pássaro e peixe em vôo único
e música de vastíssimo oceano

de um mergulho teu  corpo age
sua natureza de sal e esponja
gravita sua substância de coral
na ciência submersa de meu corpo
e toda a sua revolta matéria
se acumula na carne e rebenta
em delírio de espuma e maresia

eis o meu fôlego te habitando
cumprindo sua viagem de ondas
sopra o vento em nuvens de areia
e escreve orgasmo na pele do mar

II

corpo de mulher orvalho e mergulho
tua chama engendra sol e continente
abriga orgasmo ventania colisão
e toda a substância que nos aquece
vem de tua  fosforescente matéria
de tua severa sugestão de incêndio .

 


 
 
A  CAMISA NO VARAL
 
                            Jamil  Damous

No varal ,
uma camisa veste o vento
e seca ao sol
Estendida no tempo .

Atravessou manhãs
imune ao dano
de que o dono
não ficou impune .

Se pui de outra maneira
e de outra forma desbota .
Em sua carne de pano
os dias traçam outra rota .

Agitam-se como bandeiras
os seus significados ,
Todos ocultos na cor
e no xadrez intrincado .

No bolso , o que se guarda ?
Um bilhete suicida ,
um inédito poema
ou o segredo da vida ?

Na etiqueta , que palavra
seca ao sol o seu sentido ?
Será uma simples marca
ou um signo perdido ?

Como salvar no tempo
essa camisa só símbolo ?
No varal da memória ,
ela balança seu enigma .


 




 
 

PRÓLOGO

                       Jorge  Ventura
 

( Alguma Coisa )
Dedos: dez afiam o corpo sem censuras
Dedos desafiam o corpo: cem censuras
(Coisa Alguma)
 

Último toque de cor e pranto
– tinas inteiras. 
Último toque e pronto
– de cortinas inteiras.
– antes dele rompido
 ou corrompido ?

Acena a platéia em delírio.
À cena a platéia em delírio

– Eis o artista doido !
– Eis o artista doido !

Uma luz ...
sobre o palco convida a fazer teatro
Com vida a fazer teatro sobre o palco
... uma luz


 


 
  
 CANÇÃO DE CLÁUDIO

                              Juju Campbell Penna

              Réquiem

                               I

E ainda tremo mas afirmo que a tarde
Nunca esteve assim: lavada e doce
Por trás dela: tua sombra.
Já sorria em mim, tua lembrança
Ainda minha e só: roxa, cinza-azulada, e verde infância.
Mãos: monásticas é o que eram as tuas
Que só ao túmulo acham e reconhecem
E dobram, mãos sobre o marfim do terço
Cruzadas. Esqueléticas e fortes.
Marinha e azul é a morte
Quando a achamos na tarde
Prenha de sons soprados leves.

                              II

Nunca o ruído de teus estertores
Cobertos foram por azul de mar tão doce,
Mar de soluços, mas de mínimas ondas
Inverossímil mar como tu em ti
Em belo, em liso, em sonho, em sono.
MANSO 

                               III

Nunca a contorção pariu beleza tal
Nem tal COLOSSO, alma a distender-se
Em deus sem mais esforço.
Nos altos dedos de Deus enfim deitou-se.
Ou talvez fossem apenas as mãos (do Deus)
Ou talvez só teu dorso.

                               IV

Quieta e final pairou sem esgar,
Em desafogo
Alma em espelho sem discussão ou ruga d'alma
Alma sem desforço.

                                 V

Sobre a noite: fantasia, terno,
Bengala e os chapéus de teu contorno
Desenhados por meu lápis de estrelas
Nas estradas de Deus: a bico de fogo.

        
                       2a. parte

Para Cláudio

                                I

Há que serem traçados muitos perfis
(e quem a todos fundir e transfundir conseguiria ?)
De quem vivia em liberdade! e seus atritos.
Separar: o filho (o filho da mãe),
O irmão, o tio, o primo,
Acima suas querelas do dia-a-dia.
Capitalista?  Nenhum negócio concluía
Posto que Ganimedes, amigo de milionários
Amanhecia no botequim sem álcool
Com dois olhos: um meio o que dorme
O outro de quem sabe de tudo e que precoce
Já sorri e ri pelos meios-fios,
Cafés, quiosques, e de sapatos, chapéus,  e short  branco
 Anuncia novo horário enquanto entre ondas
 Já some. Onde achá-lo antes do outro verão?

                              II

Na praia? No gozo? No jóquei?
No guichê da raspadinha da tele-sena
Quem sabe no fôro?
De braço dados com o juiz, ou em desaforo,
Acima o carro do carnaval
Malandro entre beldades
Patrono de bloco na organizada folia
Da fotografia? Juntos os amigos!
Aposentados dos cafés de Rodoviária?
Colecionadores de carros tipo “antiques”
Garagistas, porteiros do aviário, médicos plantonistas,
Garçom, e já “meio morto de fome” algum artista.
 

                                 III
 

Quando um “amém”? Ou um “viva o trabalho”?
Contrato ou aplicação de um algum retorno?
Um conselho aproveitado que ganhasse o jogo?
Uma conversa jogada fora que descesse o morro?
Tão Brasil...
Na geladeira, colou-se teu sorriso matreiro,
Inquieto, faceto de afeto que debocha o frio,
O oco, o pífio, acima o fosso
Pagaste por CORAÇÃO & CONTRADIÇÃO
Preço fora de série
Preço colosso
Preço de homem fim de século XX
E seu desconsolo.



 


 
 

 

(ROMANCEIRO ATUALIZADO DE GRANADA)

                                                Lucila Nogueira

Nas grutas de Sacromonte
já não há cigano algum
Das muralhas de Albaicin
A sorte não me chegou
 

A tumba de Joana a louca
não fui ver na Catedral
a Alhambra e o Generalife
tem algo de Disneyworld

Os guias contam estórias
sem qualquer convicção
e os turistas fazem cooper
sobre as ruínas do Islam

As  grutas de Sacromonte
são discotecas de rock
e em Granada à meia-noite
vejo um filme de terror

Não vi a tumba de Lorca
não vi a tumba de Joana:
prefiro trazê-los vivos
fantasia na garganta



 



 
 

NOVAS NOTÍCIAS DOS VENTOS  DE HAVANA
 
                                    Maria Thereza Noronha

Tú, que partiste de Cuba,
responde tú,
donde hallarás verde y verde,
azul y azul
palma y palma bajo el cielo?
Responde tú.
( Nicolás Guillén)

                                                                  (a Maria  Aparecida Reis Araújo)

O vento sopra desafios
em rostos imóveis, dispersando nuvens
de dúvida.Apura o ouvido. Escuta
a cantiga do vento nas folhas da cana
de açúcar. Nela desfilam nomes:
Martí, Guevara , Cienfuegos , Fidel, Guillén.
Escuta-os bem.

Do mar a onda bate no lado esquerdo
no lado esquerdo do peito. Não te confunda
o canto da sereia. Esta que te chama às águas é a mesma
que te cerrou o mar.

Ronda o perigo teu escudo esfiapado:
tubarões, turbilhões levitando
enganos nas asas do vento.

Palma e palma sob o céu, recria Cuba
o verde de seu sonho;
olhos molhados no mar, fome roncando no ventre
cerceado.

O vento sopra desafios  na face
dos homens.do lagarto nos olhos reacendendo
a  chama. Apura o ouvido. Escuta
a cantiga do vento nas palmas. É a mesma
da primeira manhã.

 

 



 

 

MANTEIGUEIRA COR-DE-TANGERINA

                                                                Marta Gonçalves
 

Guarda-louça textura o tempo
jogado no pêndulo da infância
com bonequinhos picotados de papel
recompondo as prateleiras de madeira.

Manteigueira cor-de-tangerina
da avó amargando a Itália
nesta terra de dor, de aço , de lida.

Ferro de brasa assoprado pela
negrinha escrava da casa
de pau-a-pique, onde a lenha
do fogão aquentava o café amigo
– para bocas de desamparo.

Pó da memória na arcada dos anos.
Dois cálices de cristal. Xícaras made in Japan.
Jarros de água secos e áridos não apagavam a sede
dos dias bolorentos pastados na idade.

Cheiro de azinhavre no tacho de cobre
retém substâncias na mente,é a névoa
diluindo no forno de tijolo, onde o pão
amassado na angústia alimentava corpos.

Não é a manteigueira cor-de-tangerina
o itinerário das lembranças.
Mas o retrato escovado,pálido,da Tia Maria
que morreu de melancolia
                  nos vitrais da insônia.
 

 



 

O AMOR TIJUCANO

                                  Mauro  Catopodis
 

O coração não bate junto à praia. O amor
é tijucano. Nasceu , cresceu ali.
Usando calças da Toulon descombinadas
com camisetas floridas , desesperadamente estampadas.
Encerando o carro de suspensão rebaixada
para o final de semana na Barra ( que é da Tijuca, por definição)

Seguindo uma carreira militar,
freqüentando festas de debutante
e sonhando com casamento na igreja,
com vestido branco, aliança,
um bolo grande e intragável,
e convidados bêbados , maltrapilhos , grosseiros ,
O amor, tijucano,  vai ao cinema  ver “Ghost”
e  chora profusamente .
Pinta de vermelho as unhas do pé
e viaja de férias pra Caxambu.

Não, o coração definitivamente
não bate junto à praia .
É no subúrbio que se ama ,
é ali que vive a gente
que ainda se emociona
com poemas de amor lidos pelo rádio ,
os casais que se trancam
num quarto de motel barato
e planejam um futuro de filhos e grana curta.
O amor tijucano é o amor autêntico . E não há outro.
Que o amor, ele deve  se permitir
a cafonice, a angústia, o sofrimento,
longas noites de vigília, pactos de sangue .

O amor há de desprezar qualquer constrangimento.
E o ridículo . Porque ridícula na verdade
é a condição humana , tijucana
ou não. O amor , ele é só
um produto da escuridão absurda
na qual vivemos.
Mas também – sobretudo –
é a luz no final do túnel
Rebouças.
 

 



 
 

JOGOS DE ARTIFÍCIO

                                 Naila Rachid

                                   a Joan  Brosssa 
                

aponta
            ao impossível
            um lápis
            de cor
            ação lazúli
aspira
            ao labirinto
            um homem
           de sonho
            íris câmera
doma
           o instante
           uma borboleta
           do cais
           furtiva chave
soletra
          o espetáculo
          um corisco
         de absurdo
         diamante foz

desesquecendo
acena
o mago de Ás
                  pretexto
corpos de enlaces viver

– Bravo !


 

 

 
 

 O GALO  FAVELADO

                             Osório Peixoto Silva
 

Nos becos bêbados
A fé sem rumo,
No tronco trêmulo,
Sem  sombra e prumo,
Findou-se o fruto .
O fogo inútil
Perdeu a chama.

No estrado cama
O amor foi fúria
Porque desespero.
No quarto abrigo
O calor amigo
fugiu nas frestas.

Só tu, cantor em festa,
Cantas o dia , mesmo sendo escuro,
A rubra crista é leme erguido
Buscando sempre o nascente
Em fogo.

Em teu capote de luz e plumas,
Sobre a flor sem pétalas
E a esperança morta,
Teu canto é chama,
Chamado e brado,
Teu canto é trado
Furando escuros.

Ensinou-te o tempo
Pelo tempo a fora
Que toda noite
Tem uma aurora.
Que todo pranto
Vai regar o riso.

Ensinou-te a vida
Pela vida a fora
Que em toda treva
Há um esperar de luz,
Que em toda semente morta
Há sempre um tronco
A renascer no chão.

Por isso cantas
E teu canto explode
Sobre a flor sem pétalas
E o riso decepado,
As pústulas sangrentas,
Os pulmões brocados,
Sobre a fome e a lama.
Teu canto é chama
Queimando trevas.


 

 
 

CANÇÃO PARA A  NOITE

                                   Rosemberg Cariri
 

A noite é uma mãe
         lírica e trágica
como a dança do ventre
na sua gravidez  mágica
e suas mãos de tédio.

Aí, nesta noite minha angústia,
meu silêncio, meu segredo,
arrebentam as velas pálidas
que circundam esta prisão e,
na aspereza dos meus versos,
procuram o teu pescoço
         para um pacto de vida.

A noite é uma mãe
         grave e trágica,
traz presa nas presas agudas
a fatalidade do gênesis
e sofre dores sem parir
o sol de outro amanhã.

A noite é uma mãe
        lírica e trágica...aí, minha angústia
procura o teu pescoço
         para um pacto de vida!
 


 



 
 

CANTATA DA ATLÂNTICA TRAVESSIA

                             Stella Leonardos

“Sobe sobe, meu gajeiro!

Sobe, meu gajeiro real!...”
Nau Catarineta ( Folclore do Brasil)
“Navegar é preciso.”
Lema da Escola de Sagres
“Corre sem vela e sem leme...”
(Camões )
“E bem com’ água do mar...”
(Dioguo Brandam)

                                                                 

Sobe sobe, meu gajeiro!
Sobe, meu gajeiro real!
Dize adeus” às terras lindas
e areias de Portugal!

                             _ Navegar é preciso.

Calma n’água,
 brisa calma,
  calmaria.
   De um céu fixo
    fitam astros,
    de luz fria

.                            
Navegar é preciso.

Sobe, sobe, meu gajeiro
sobe, meu gajeiro real!
Que há mar, muito mais, ainda,
pras naves de Portugal!

– Navegar é preciso.

Fora das naus
 mar ingente.
  Dentro das naus
   alma gente
    de ousadia.
 

“Corre sem vela e sem leme
O tempo desordenado,
Dum grande vento levado.
O que perigo não teme
É de pouco experimentado.”
 

                               –  Navegar é preciso.
 

Sobe, sobe meu gajeiro
Sobe, meu gajeiro real!
Por estas águas sem lindes
onde um porto, Portugal?
 

                                –  Navegar é preciso.
 

Só céu e água.
 Só céu e água
  Longadia.
   Longos dias.
    Longos dias .
 
 

“E bem com’água do mar
Não muda jamais a cor
Nem perde nunca sabor
Por quantos nele vão dar:
Assi eu, triste, não posso
Com mil males d`estes tais,
Deixar nunca de ser vosso,
Em que sejam muito mais.
 

                           –  Navegar é preciso.
 

Sobe, sobe. Meu gajeiro:
que avistas, gajeiro real?
Vês acaso terras índias
 pro reino de Portugal?
 

                            –  Navegar é preciso.
 

Mas um dia,
  de uma gávea
   não dormida
    ó gajeiro
     da alegria!
      Sobre a frota
       um vir de asa
        dando voltas:
         a gaivota
          voa e volta.
           De que praia
            voltaria?

                             –  Navegar é preciso.
 
 
  Desce! Desce, meu gajeiro,
desce, meu gajeiro real.
Aporta nas terras ínvias
Com Pedro Álvares Cabral!
 

Vem a frota,
  se anuncia.
   vem e aporta
 – navegar tão preciso!
 

Do céu pasmo
 sol insólito
   se via.