Oceano coligido /antologia poética - Iacyr Anderson  Freitas

 
                                    - Sobre o autor e a obra
 

"Poderíamos terminar brandindo o velho chavão: Iacyr é um poeta que veio para ficar, pena que não circule nacionalmente, etc., etc., etc. Mas prefiro terminar afirmando que Iacyr Anderson Freitas desponta como uma das vozes mais importantes da geração dos 80."
                                                                       Luiz Ruffato

"Estreante em livro na década de 80 e com dez coletâneas poéticas já editadas, Iacyr Anderson Freitas tem criado um personalíssimo universo verbal."
                                                                       Assis Brasil 

"Descobre-se o poeta Iacyr Anderson Freitas pelo plano lingüístico com que se exprime. A disposição das palavras, as intenções ontológicas e a trama conteudística, em que ora se desvela ora se esconde um largo território da experiência, denunciam uma forte presença lírica."
                                                                         Fábio Lucas

"A poética iacyriana consiste em reconstruir - com pensamentos e afetos - os ligares onde a hipótese de reconstrução se desvaneceu. Por isso, o poeta vem a ser mestre de si mesmo, hierofante de uma mitologia fragmentária e profundamente apelativa."
                                          Edimilson de Almeida Pereira

"... chegará o dia em que as verticais de Iacyr Anderson Freitas vencerão a horizontalidade vesga do mercado editorial brasileiro, para que maior número de leitores possa experimentar essas palavras de rigor e febre."
                                     Fernando Fábio Fiorese Furtado

 

                        

     PEQUENO DIÁRIO DA PALAVRA 

                                    Iacyr Anderson Freitas        

 

toda palavra tem um oco
uma fenda uma avessa
claridade
de onde as formigas emigram. 

há gravetos, conchas vocabulares,
acentos à paisana, vírgulas úmidas e bivalves. 

um vento antigo
tange as crases desse poema, arrasta
os pontos de exclamação pelos cabelos.
estende-os para secar
o sol mais triste de seu nome. 

o meio-dia a esmo
bate a sua orelha na cancela. 

toda palavra tem sexo e sintaxe,
um amarelo em luta

com as folhas mortas do terreiro.
 

alfabeto crivado de dízimos
onde não se pode tagarelar
sem doer um grão de arroz
por sob a língua.
 

palavra carece de pátria
lugar de raiz e eleição.
 

onde adensa sua espera, duas borboletas
grifam a giz a paisagem.

 

Freitas, Iacyr Anderson.Oceano Coligido - antologia poética. Belo Horizonte, ed. Viramundo, 2000.