Viagem em Torno De - Tanussi Cardoso

                                                                                                 




    Viagem em Torno De , a princípio, surge no momento em que o poeta vislumbra a possibilidade da Morte. À sua volta, saem de cena amigos, parentes, pai, irmãs. Mas o poeta não faz dessa dor uma espécie de catarse incontrolável; ao contrário, busca caminhos para sua poesia, transformando-a na possibilidade de discutir, de rever a própria vida.
     Proposto o desafio, resta a pergunta: estaria pronto o poeta? E a resposta se encontra neste livro maduro, belíssimo, cujo título vem em aberto: Viagem em torno De. uma viagem a percorrer as trilhas dos três Mistérios: Morte, Vida, Poesia, subdividida em pequenos roteiros.

    
O primeiro livro fala da morte: é o Livro dos Elos - a visão dos nossos fantasmas, das nossas dores. A certeza do reencontro. A incerteza do encontro. Perguntas. A mordida do desconhecido. Mas, ainda assim, a esperança sempre-viva:

                  Pois será breve esse dia
                  Porque está escrito no livro
                  Dos jardins das Profecias

    
Esse livro desemboca em outro - o da Vida, sendo uma espécie de ilação entre outros dois Mistérios. É o Livro das Impressões - as de que estamos vivos, as de que sonhamos. O poeta diante de seus espelhos: famílias,amores, infâncias. A vida no meio. A vida em meio. Um homem nu diante de si mesmo. E de seus medos. Frágil e fragmentado. Forte e uno: Como um cego a flutuar no escuro.

    O terceiro livro é o Livro do Acaso - aquele que o destino chamou de Poesia. É a síntese ( por isso, poesia) entre as duas viagens iniciais. Encerra os caminhos com a esperança da (na) palavra: Deve haver poesia no dedo de deus.
    
É  o fechamento e, logo, o reinício do ciclo ( círculo). O retorno para dentro de si mesmo. O último encontro do homem com seus enigmas. Talvez o seu pouso eterno.

 

AS MORTES

quando o primeiro amor morreu
eu disse: morri

quando meu pai se foi
coração descontrolado
eu disse: morri

quando as irmãs mortas
a tia morta
eu disse: morri

depois, a avó do Norte
os amigos da sorte
os primos perdidos
o pequinês, o siamês
morri, morri

estou vivo
a poesia pulsa
a natureza explode
o amor me beija na boca
um Deus insiste que sim

sei não
acho que só vou
morrer
depois de mim

                       Tanussi Cardoso

 

 

 

 

 

Tanussi Cardoso: Para iluminar o silêncio

                                     
Salgado Maranhão

     Da geração de poetas que cultivam a poesia desde a década de 70, Tanussi Cardoso é um dos mais atuantes. Vem do tempo em que (ainda mais do que hoje), era preciso lutar muito, correr aos bares, portas de teatro e praças públicas, numa verdadeira guerrilha de afirmação do verso. Publicou três livros individuais e trabalhos em parceria com amigos poetas como Socorro Trindade, Leila Miccólis, Bráulio Tavares, Claufe Rodrigues, Glauco Mattoso, Mano Mello, Ulisses Tavares. O seu último lançamento foi o Beco Com Saídas, de 91, que traz uma rascante visão do cotidiano firmada na ironia, no sarcasmo,e, sobretudo, numa lírica enxuta e visceral.
       Já neste Viagem Em Torno De, Tanussi Cardoso muda o tom. O que antes fora oswaldianamente irônico, vira elegíaco; o que  era o circo da paixão, fica solene; reflexivo. É o poeta diante do nada. Frente ao semblante da morte e seu olhar e seu inconfundível. E é o próprio poeta quem pergunta:

                      Quem morre antes,
                 o morto ou seus objetos?

    
E afirma: Nesse momento nenhum pássaro é possível.
    O livro, que está dividido em três partes, embora com matizes variados, trata da dor extrema e de sua transcendência. Permanece, no entanto, em sua verve, o aquecimento do verso e a alta tensão emotiva a incendiar as veias: 

                      ( E quem ásperas mãos
                    me cravam seus dardos ?)

     Segundo João Cabral de Melo Neto, há dois tipos de poetas: os que escrevem por excesso de ser, e aqueles que o fazem por deficiência de ser. Neste mais vale o labor que a inspiração; já nos outros a poesia é um rio sem fronteiras.
     É é esse o rio de Tanussi. Nele é o coração que busca o verbo. Não o sentir puramente abstrato e impalpável, mas a vida em suas lanhuras e esplendores e corporificar o sentimento com palavras de carne, concretas e explosivas:

                       O amor é, exatamente
                  o tiro no peito do matador.

     Se na primeira parte ( Livro dos Elos), o poeta esgrime com a morte equilibrando-se no verso, no poder da poesia para seduzir a fera, na segunda parte, no Livro das Impressões , há um clarão de vitória, um renascer da fênix:

                           Estou em paz, amor
                                          (...)
                      Novo eclipse não verei mais

                                          (...)
                Se te disser que estou triste ou alegre
       Será apenas detalhes de uma lâmina que corta.

    E continua a subida na terceira parte, no Livro do Acaso, onde é mais nítido o sentido de transcendência :

                                A palavra
                                     viva
                  transcende a sua hora.

    
E ainda:

                               E o poeta é só
                                   um homem
                                        dentro
                                      de Deus.

     Por estas e por outras, é que Viagem Em Torno De é uma ótima oportunidade para um reencontro com a poesia de Tanussi Cardoso, que nos toca com a humanidade e bravura dos seus versos, com a sua forma de decantar o ser e ilumina o silêncio.

 

Cardoso, Tanussi.Viagem em Torno De. Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000. (80 páginas)