minas em mim e o mar esse trem azul - Ronaldo Werneck

Filme infindável

             Projetado em 1977 para as comemorações do centenário de Cataguases _ ‘pomba, pômbides minhas’, finnicius, fonte-foz, musa, eterno retorno – “Pomba Poema" foi um longo mergulho no Rio Pomba, que banha a cidade , e na história que por suas margens corre; minas- mar- memória.  
             Vinte anos depois, esgotada a sua primeira edição, surgiu esta oportunidade de uma retomada do poema _ uma versão 199 -120 Anos de Cataguases - com algumas raras modificações no texto e outras, já não tanto, no aspecto gráfico. Novas fotos substituem os negativos originais, de Adriana Monteiro, que se perderam no tempo. O poema agora procura se manter e deixar que seu corpo flua na vertical: nuvens de palavras, manchas esparsas que flutuam sobre o branco, contrastando em caudal com a lenta cadência do rio, seu mágico mover imóvel. 
               Filme infindável, naturalmente se entrevê muitas vezes o Pomba _ olh’el’ali! _ que passa ao largo da segunda seç(ss)ão do livro, correndo sob acintosas máscaras entre outras várias margens quase miragens. Mas a ninguém engana: embaralha-se no emaranhar de lugares, de ruídos, de falares, perde-se numa curva, mas volta sempre, interior, o mesmo de Heráclito na distância _ minas marejando, ritornelo, delta, infância. 
                O mar e seus tropeços, o mar-em-mim e seu recomeço. O mar surgiu no verão passado na Lagoa de Araruama. Não o mar, mas sua memória, o seu desdobrar. Junto com a minha amiga Neti Szpilman e seus pais, saíamos todas as manhãs, mar afora. Nosso ‘capitão’ Renato, pai de Neti, vivia preocupadíssimo com a poita que deitara ao mar para amarrar seu barco. Poita ? Pau de amarra, palavra novidade. Poita levou-me a Rimbaud e às peninsules demarrées do Bateau Îvre. 
                  Minas em mim e o mar esse trem azul. O mar não era mar, mas lagoa-mar, levou-me ao mar de papel, ao mar da memória, mar-palimpsesto. Rimbaud como isca, a rede trouxe faíscas do acaso : Mallarmé, é claro, e também Pound, Camus, Camões, João Cabral, Jorge de Lima, Mário Faustino, Gullar, todos sobrenadando ao sol sob o azul que a gente fita, aquele azul da Bahia que me levou também a Caetano Veloso, Ave. Quer dizer, peixe. O de Marianne Moore, aquele. Prata que  na água cresce. Mar que nele envelhece . 

                                                                                                 Ronaldo Werneck 
                                                                                                  Rio,dezembro/97.     

Farol 

e esse velho e atroz poema? 
Quem acaso o arquiteto? 
Que mão sem braço o escreveu ?
 (Jorge de Lima  ) 
  

  faz-se no fundo um furor noctâmbulo, 
       bater de sombras, noite e mundo 
       súbito _ penumbra, preâmbulo 
  

       surge só do sono um sobressalto 
             um susto, uma onda malsã 
       no chumbo da manhã-cobalto 

       surge só do sobressono um salto, 
          um mergulho no mardrogado, 
           engulho,marulho,maralto 
faz-se no sobressono uma fresta, 
        uma réstia, sobrepondo 
luz ao que resta, luz canhestra 

                                                                

Werneck , Ronaldo . Minas em mim e o mar esse trem azul . Cataguases, Poemação Produções , 1999. (144 p.)