Das rias ao mar oceano - Reynaldo Valinho Alvarez


        Reynaldo Valinho Alvarez, nascido em 1931, no Rio de Janeiro, onde se formou em Letras Clássicas, Direito, Economia e Administração, publicou 30 livros. Participou em mais de 20 obras coletivas. Representou os poetas brasileiros em festivais internacionais de poesia realizados na Suécia, na República da Macedônia (duas vezes), no Quebec (Canadá) e nas Canárias (Espanha). Foi diretor de várias associações de escritores. Fez parte de numerosas comissões julgadoras de concursos literários de âmbito nacional. Colabora em jornais e revistas. Pertence a diversos órgãos culturais, entre eles o Pen Clube.
     De ascendência luso-espanhola, com raiz familiar na província de Pontevedra, o poeta reúne, em Das rias ao mar oceano, poemas de inspiração galaica, alguns inéditos, outros publicados em suas obras anteriores, além de outros tantos que se relacionam com os lugares, as pessoas, a história, a poesia e a cultura, de modo geral, do universo ibérico.
     Das rias ao mar oceano entrelaça, no seu sistema de referências, o passado, o presente e o futuro. Fala do mundo dos descobrimentos, da epopéia das migrações e das perguntas que se levantam no início de um terceiro milênio sob o signo de uma globalização ainda mal concebida e gestada.
     Os poemas deste livro fundem pensamento e emoção, ao unirem o antigo ao moderno e juntarem o regional galaico ao universal, numa viagem que parte das rias galegas e atravessa o mar oceano, para chegar, em busca da esperança, à decantada ilusão americana. Pintam, assim, num largo painel, os passos que levaram à emergência da realidade contemporânea nas terras banhadas pelo Atlântico.
     Vida e morte, a certeza do fim e o desejo de eternidade marcam os limites de uma navegação sem roteiro pelo mar desconhecido. E é desse drama vivido pela espécie humana, ao longo de seu percurso existencial, que falam as vozes viscerais desta alegoria que Reynaldo Valinho Alvarez intitulou Das rias ao mar oceano.

   

FINISTERRE, FINISTERRE
 

1

Finisterre, Finisterre,
que existe além destas águas:
o céu ou um mar de mágoas? 

Sentado à beira do mar,
contemplo o sol em declínio.
Ah, se o pudesse alcançar
e colher da luz o escrínio,
antes que o trague o oceano,
logo em trevas sepultado,
levando consigo o arcano
de todo o tempo passado.
Aqui tremeram legiões
de cansados campeões
transtornados pelo medo.
O sol nas ondas desfeito
transformava cada peito
em tenebroso rochedo.
 

Finisterre, Finisterre,
pergunta-me a alma sofrida:
fim da Terra ou fim da vida?
 

Do mar tenebroso, o fundo
temo e evito. Voei léguas
perdidas, correndo o mundo,
montado em aladas éguas.
Das nuvens, sobre o oceano,
não vi o fundo dos mares.
Tive somente, nos ares,
visões do mais puro engano.
A Terra se reduzia
a uma tela verde e fria
pelo mar emoldurada.
O tempo era um potro solto
como o cabelo revolto
no cio da bem-amada.
 

3 

Finisterre, Finisterre,
que há, do teu mar, bem no fundo:
o nada ou um novo mundo? 

Para além de Finisterre,
que mundo existe? Há quimeras,
esfinges, grifos e o erre
da raiva de horrendas feras?
Ou o barco naufragado
de um marinheiro defunto,
entre as pedras encalhado?
Mas de novo eis que pergunto:
para além, no mar das trevas,
em que vale, ó morte, cevas
o rebanho que roubaste?
Tu não respondes nem calas.
No som das ondas, embalas
o sono mau que plantaste.
 

Finisterre, Finisterre,
o vento que sopra forte
oculta o riso da morte.
 

Mar de celtas e viquingues,
normandos e predadores,
em tuas águas distingues
os fiéis dos traidores?
Ou todos levas ao fundo,
indiferente e imparcial,
juntando o limpo ao imundo
na mesma morte banal?
Por que te entrevas e travas
tua porta de ondas bravas
ao pescador e ao anzol?
Nenhuma paixão te inflama
e recusas ver na lama
a vida que medra ao sol?

5

Finisterre, Finisterre,
sangra em ti um claro corte,
paixão da vida e da morte.

Mar de trevas, mar de cores
dissolvidas nos meus olhos,
como as asas dos açores
sobrevoando os escolhos,
mar de lendas e parlendas,
que ulula, canta e sussurra,
e ora se desfaz em rendas,
ora agride, espanca e surra,
quando afinal, fim da Terra,
darás fim a esta guerra
e jubilarás a lança,
pra te tornares começo,
por que se paga bom preço
do caminho da esperança?

 6

Finisterre, Finisterre,
fim da vida que se cansa
ou fim da desesperança?

Finisterre, o mar nas rias
soluça cantigas novas.
Tu, jogral das manhãs frias,
levantas, cantas e trovas,
tu que és fim, ele que é treva,
no encontro de terra e água
que tanta memória leva,
em sua concha de mágoa
que na areia a onda enterra,
e assim o protege e encerra
como na madre o embrião,
até que o roube e carregue,
no curso que a vida segue,
o bom ou o mau ladrão.

 7

Finisterre, Finisterre,
já não és o fim da Terra,
mas o da última guerra.

Aceso, o mar tenebroso,
é lúcido, ao meio-dia,
e o morto passado umbroso
desfaz-se na melodia
de novos mundos trazidos
no embalo das ondas calmas,
como suaves vagidos
de recém-nascidas almas.
Sobre o mar desencantado,
agora bóia entediado
e bocejando o profundo
medo ancestral, que desperta
toda vez que está aberta
a porta de um novo mundo.

8

Finisterre, sopra o vento
nas abas do teu rochedo
e o tempo desfaz o medo.
Já não há fim nem fronteira
e o mar já não tenebroso
deita agora à tua beira
como o cão que lambe o dono
mergulhado em fundo sono.

Finisterre, o fim do dia
um outro sol  anuncia.

 

Alvarez, Reynaldo Valinho.Das rias ao mar oceano. Rio de Janeiro, Editora Ágora da Ilha / NUEG-UFF , 2000.
(200 p.)
 

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