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Sobre Telemaquias
, o poeta (e também ator), fala em primeira pessoa:
De(s)palavras
O título do meu livro - Telemaquias
- é o cruzamento da busca pelo pai engendrada
por Telêmaco no início da Odisséia com um
trabalho teórico do admi rável poeta Francis Ponge
Métodos. Esta chave plural é fundamental
para o meu trabalho. Ela não quer sínteses, mas
guerras, atritos, dúvidas, angústias, questões em
aberto dominadas por amor e fúria. Intuição e
Razão duelam em mim. Sou racional, afirmo, porém o
poético traz outras dimensões. Sei que o centro de
minhas pesquisas aí está num poeta como João
Cabral, nosso grande enigma, hoje mais vivo ainda. Sei
que traço, geométrico, meus dilemas. E através deles,
no fundo de um África rimbaudiana, conradiana,
uma ferida sussurra, como se o mundo fosse
acabar-começar. The horror, the horror.
Maurício
Pucú Gonçalves
:
BASTARDIA
Não fomos os
únicos a morrer
em dias que não se contam, em rosas que nào se tocam.
Erguemos ao Etéreo nossas preces de espasmos
quando caímos, sem turíbulos e altares, no afogamento
[de uma noite órfã.
Não invadimos a Polônia, não ultrapassamos o Bojador,
não negociamos a língua com normandos
nem éramos árabes em glebas ibéricas.
Mas revelamos a rusticidade do corpo
Com odores de fezes, de urinas,
Com a fuga do mar e das ilhas
ausências em Alexandria, silêncios em Quéops, vazios
[do Louvre.
Se, por um momento, Você e Eu avistássemos os limites
[da Roma primeva
e hesitantes, como um velho psicanalista austríaco,
[traçássemos
o atavismo confuso que a História nos nega.
Muito tempo. Muito tempo em conversas tísicas sobre
[assuntos bêbados
A nódoa de gordura na camisa de trabalho
O resfriado esquecido no lenço do colégio
Os olhos dos quartos onde o papel de parede se descola
ao ouvir os vapores roubados de epifanias ligeiras.
Se esboçássemos o Inferno para os nossos pecados.
Somos um brilho futuro de casacas fora de moda
a dispersão de nuvens que não choveram
os discos arranhados guardados com zelo inútil,
somos a fome de fome.
Pedi os prelúdios, as cantatas, as sereias
Perdi as certezas, as denúncias, os poemas
Você espera, imóvel,
Imoto. Você-Espera.
Gonçalves, Maurício. Telemaquias.
Rio de Janeiro, Razão Cultural,1999.(60 p.)
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