Turbilhão de símbolos - Jorge Ventura

                                                                                                 

 


 

 

 
O livro

 

     Como se referencia no próprio título, Turbilhão de símbolos, livro de estréia de Jorge Ventura, revela facetas de uma poesia que se faz por necessidade do dizer-se a si, por si e para o mundo. Por isto, o livro se organiza em movimento triplo - o místico, o enamorado e o mundano, evidenciando  a desvelação do poeta-autor nas faces em que se desmascara pela palavra,enquanto sendo manifestação de si próprio transmudado  pelo verbo em verso:

    O  tempo foi ao meu ver, a maior testemunha de quanto me dediquei, de corpo e alma, pela publicação de Turbilhão de símbolos. (...) este livro tem muito de mim e do discurso dos profetas de rua, das paixões dos poetas de bar e do humor irreverente das figuras da noite.
    Confesso  que ao mergulhar neste turbilhão, me afoguei entre os ícones. Fiquei inteiramente envolvido num verdadeiro caldeirão de pessoas, desejos, mitos e ídolos que fizeram parte da minha vida mística, enamorada e mundana. Às vezes me via neles, tamanha a identificação; noutras, via o manifesto de uma pessoa comum ou mesmo uma brincadeira com as palavras, numa referência clara de minha admiração pelo idioma. (Jorge Ventura)

     Resultante de 20 anos de poesia acumulada em pastas, gavetas e alguns retalhos de visões de mundo, o livro também se mostra como galeria de sentimentos e coisas, histórias que se clareiam pelo momento do fazer poético na  busca de algum diálogo com platéias desconhecidas, quando o poeta, em suas injunções de ser humano comprometido com as falas da vida,  sobrevive com a palavra  e pela palavra poética no universo de sua experiência existencial. 
     E assim, Turbilhão de símbolos  segue seu caudoloso  percurso em poemas de versos longos, de inclinação fortemente prosaica e paralelística,  mesclados por versos curtos, de molejo melodioso, a entremear-se na musicalidade do poeta com o métier do  letrista de canções populares, a emparelhar-se, à moda de crônica, com flagrantes do cotidiano e crítica da realidade, alimentando-se de te(n)sões dramáticas, suspiros e sonhos.

 

Culpa Cristã

Eu vejo e festejo essa romaria,
rumo à Maria,
rumo a José.
A pé todos parecem iguais nessa
passeata de fé.
E é no afã desse povo que encontro
forças de novo para acreditar
com ar de quem tem culpa
por algo que jamais fiz.

 

O homem entre quatro paredes

Nas alcatéias - o uivo.
Nos enxames - o favo.
Nos arquipélagos - a solidão.
E o homem entre quatro paredes.

Nos vocábulos - o livro.
Nos serpentários - a cova.
Nas mandas - o pasto.
E o homem entre quatro paredes.

Nos bandos - o vôo.
Nas cáfilas - as pegadas.
Nas cordilheiras - a escalada.
E o homem entre quatro paredes.

Na dinheirama - o poder.
No operariado - a labuta.
Nos casarios - o medo.
E o homem entre quatro paredes

Soldados coletivos - o armamento.
Marcham à guerra santa, fria e civil.
Nas esquadrilhas - bólides e bombardeio.
Eis que as quatro paredes se abrem.

O homem inicia a sua luta coletiva
no combate à dita liberdade furtiva.
Entre quatro fuzis, entre quatro tiros,
entre quatro mortes, entre quatro velas.
Enterrado entre quatro palmos,
quando ali sua vida encerra,
entre quatro rezas, entre quatro choros,
entre quatro paredes de terra.

 

Ventura, Jorge. Turbilhão de símbolos. Rio de Janeiro, Imprimatur, 2000. 

 

 

  

 

O poeta

 

Jorge Ventura, 37 anos, é carioca. É ator, jornalista e publicitário.
Nos anos 80, atuou em peças de autores consagrados, como Brecht, Gogol, Ariano Suassuna, Gianfrancesco Guarnieri, Plínio Marcos e Dias Gomes.
Como jornalista, trabalhou nos principais jornais do Rio, cobrindo política, artes e esportes. Publicou crônicas e artigos em revistas do Rio e de São Paulo.
Há 13 anos trabalha como diretor de criação da CM - Comunicação e Marketings.
Sua paixão por literatura e música vem dos tempos de universitário, quando encenou Procura-se um amigo, de Carlos Drummond de Andrade, numa poe-montagem com textos também de Fernando Pessoa, Ferreira Gullar e Vinicius de Moraes, entre tantos que influenciaram em sua formação como poeta.
Participa ativamente de projetos de poesia falada.