Por mares nunca dantes - Geraldo Carneiro


        Por mares nunca dantes é um poema épico - burlesco, cujo protagonista mais visível é o poeta Luís Vaz de Camões. O enredo é simples: na travessia do Cabo das Tormentas, a caravela de Camões cai num possível buraco negro e acaba desembarcando no Rio de Janeiro de hoje, mais de quatro séculos depois.  A viagem imaginária de Camões serve de pretexto para a viagem poética de Geraldo Carneiro, na qual se misturam a fala do português de diversas épocas. Por trás das peripécias épico-burlescas de Luís Vaz, em suas andanças pela terra das vergonhas saradinhas, conforme a expressão de Pero Vaz de Caminha, o grande protagonista de Por mares nunca dantes é a própria linguagem.

 

           e Luís Vaz  proclama:
                     oh maravilha ilha brasílica!
                      e se supõe no Paraíso Terreal
          entre deusas d'áfrica fêmeas seráficas
          perséfones ávidas de riquezas
          ambar-gris ($7) marfim ($8) ébano ($6)
                    odaliscas de alma almiscarada
                                 ($25 a hora)

         (se enxergasse a luz do seu futuro
          entre as estrelas foscas do passado
         talvez tivesse proclamado assim:
         por essas deusas, sim, hei de enfrentar
         os tubarões do Golfo de Tonquim!
         mas como o Tempo não se desvelasse
         em suas voltas e revoltas disse:)

      O Elogio das Índias Ocidentais (fragmento)

 

Carneiro, Geraldo. Por mares nunca dantes. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2000.
(65 p.)
 

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