
|
O ESPLENDOR É VIVER
Escrevi estes gemidos entre êxtases e
sussurros, à medida em que, sofrendo o sortilégio de ser Jó
de mim, lambia as feridas da alma; uma força secreta e
misteriosa conduzia minha percepção à revelação do SER, e
ao conhecimento da divindade que em tudo habita, e a tudo dá a
Vida. Gemia pela juventude que perdi, por não tentá-la, e que
agitava um sangue sem função, em minhas veias. Comecei
lamentando e gemendo, à beira do caminho; tinha meu caco de
telha, mas um sopro angélico fez-me olhar para o céu, e ver as
infinitas estrelas: Eu lamentava ser cativo dos outros e de mim,
nestes termos: Para uns a pândega ./ Para mim o pânico/
Para uns a pele/ para mim o pênfigo./Para uns a coroa dos reis/
para mim a coroa do Cristo. Em minha gemebunda litania de
cativo do medo, eu não sabia que a carne é santa, que o amor não
é pecado.
Não sabia que só uma grande devoção à
Vida pode fazer com que as criaturas humanas desistam do vício
de sofrer e morrer em vida. Os versos foram mudando de tom e de
cor, indo do caos ao cosmo, da solidão ã solidariedade, e do
ódio ao amor.Não mais resisti, deixei fluir a torrente de
palavras e, à maneira de Fernando Pessoa, transbordei-me me fiz
senão extravasar-me, e ergui em cada canto de minha alma um
altar a um Deus diferente.Ao ouvir a flauta mágica da poesia,
percebi, maravilhado, que um Jó não mais amante da
dor e do sofrimento soprava em meus ouvidos palavras doces, como
o mar, amor, e o supremo mantra: DEUS e VIDA. Não mais fazendo
do corpo o santuário da dor, vi que se a vida é feita de
momentos o agora é nossa única chance de sermos felizes na
carne.
Mesmo sofrendo a angústia de estar vivo, e
ter que morrer um dia eu canto e proclamo a alegria e a glória
de viver. No mistério da criação, tive a sublime revelação:
Deus renasceu no homem. Recuso-me a crer no Cristo sanguinário
e vingativo, anunciado por um colérico São João, no livro do
Apocalipse. O filho de deus não virá para assassinar os
esposos e os artistas, pois isto não só aniquilaria toda a
beleza da vida, como também a deixaria paralisada. ELE virá,
em verdade, em forma de AMOR, e nos revelará um éden que temos
dentro de cada um de nós - um paraíso de onde não seremos
expulsos.
Só uma grande escuridão pode ocultar aos
homens os anjos que são. Não queremos mais ser apologetas da
dor e do sofrimento. Lutamos pela esperança, e renunciamos ao
desespero. Insistir no vício de viver, quando é urgente a luta
pela vida, é como distribuir seringas contaminadas em tempos de
peste.
Além da dor nunca passamos, mas não podemos
passar pelos homens como se os homens fossem apenas
homens. Como se o homem fosse projeto de luz, que Deus,
desiludido, abandonou. Mas eis que a centelha divina, que a vida
em nós criou, de novo arde, no coração da terra. Agora
estamos prontos para o Supremo Encontro, e a maior das façanhas
humanas: a conquista do coração.
Brasigóis Felício

Fragmento
de poema
(extraído de "Meus gemidos de Jó)
XI
Senhor, fazei
que não morra
antes de morrer.
Cuida que
meu corpo
não apodreça
antes de apodrecer.
Até ser chamado
ao encontro
de vossa áspera
e fustigadora piedade,
Livrai-me de ser
meu inimigo
o carrasco de mim
Brasigóis Felício
Felício,
Brasigóis. Meus gemidos de Jó. Goiania,
Editora Kelps, 2000. (128 páginas)
|