Veios do corpo- Beatriz Escorcio Chacon

                                                                                                 



 

 
 
Beatriz e antilira

                       Marco Lucchesi

Acabo de ler Veios do corpo. Tenho a impressão de uma coda de Mesa Posta. Mais denso e claro. Mais leve e afiado. Versos breves. Essenciais. O mais no menos. E, no entanto, o rumor fundo segue como antes: o quotidiano e seus rastros. A infância. A Terra- Mãe. Um repertório de imagens, algo dissonantes, como na lição de Bandeira.
Quotidiano e saudade. Coisas reais e ilusórias.E muito das serestas. Cartola e Noel. O Centro e o subúrbio. E Piratininga, majestosa, a compor sua paisagem lírica. Lembro-me de Homero homem e de Ângelo Longo, que admiravam a alma fluminense, a alma das ruas de Mesa Posta. Ruas de uma geografia toda sua. E essa busca de identidade, essa carta de achamento, essa biografia lírica, essa autobiologia, que demarcam tanta inquietação. Forma-corpo-desejo. Sem tais elementos, sua expressão deixava de existir. A vida e seus desafios. O mundo e sua afirmação. O feminino e sua promessa. Tudo isso, a emergir de seu quotidiano. Feridas abertas. Coração generoso. Agridoce Esperança. Beatriz sorri. E o melhor de Veios  habita essa contradição. Uma trama que inesperadamente se destrama. Penso em Aos meus cuidados, Seio farto, Estragos, Mapa-mundi . Uma antiBeatriz que tudo subverte. Ou quase: Uma contramusa de letra e de carne, delicada e rude. E surpreendo na leveza de Veios uma lactência, um drama que sorri de si mesmo, nos textos mais fortes. Beatriz sorri do Paraíso. Olha para o Beco. Pasárgada. Ciméria.

 

Plena nudez

Eu e meu útero
somente agora
maduro
pleno
um corpo só nosso.
pêra madura sou eu
dentro dele
ele contorno fêmeo
de mim.

Depois que toda minha mãe
secou
e meu filho
criou mundo
desnudamos nossos floridos.
Em bolsas de mágoas vermelhas
se foram tabelas e partos
cordões agridoces
repartidos.

Enfim estação de sumos
orgia de polpas e bênçãos
intimidades.
Enfim sós.
eu e meu útero
um só corpo nu
pêra mordida no cio
desfrutando outros nus
indecência sagrada.

                             Beatriz Chacon

Chacon, Beatriz Escorcio.Veios do corpo. Rio de Janeiro, Editoração, 2000. 

 

Prêmios e coletâneas

-I Concurso Nacional Jornal Balcão de Poesias
(1o. lugar)
-Prêmio Literário Stanislaw Ponte Preta, crônicas, Prefeitura do Rio de Janeiro, RIOARTE, 1992 e 1994.
-VII Prêmio de Poesia, Editora Scortecci. São Paulo, 1989.
-Sociedade dos poetas vivos,Editora Edicon, São Paulo,1991.
- Mulher, Editora Blocos,Rio,1995.

Livros publicados

Poesia-cartaz,
poemas para colocar na parede, com desenhos de Miguel Coelho, Niterói,1987.
Mesa posta, poemas, Editora Cromos, Niterói, 1991.
Contadeiras de histórias, relatos de vida e fantasia de alunas da Oficina Literária da Universidade da Terceira Idade (orientadora), Gráfica Falcão, Niterói, 1996.
Surpresa de quintal, história infantil, Ao livro Técnico,Rio,1996 (1a. edição) e 1997 (2a. edição)