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O
livro
Pássaro
de fogo
De
acordo com a mitologia grega, Fênix é um pássaro que renasce das próprias
cinzas. O poeta Alcides Buss,
mestre em evocar belas imagens, não poderia ter escolhido melhor metáfora
para dar nome a seu mais recente livro de poesia:Cinza
de Fênix
&
Três
Elegias.
A obra, recém-lançada pela Editora Insular, de Florianópolis,
reúne poemas que são como “cinzas”, resultantes não apenas de
“lampejos” de imaginação, como também de um lento processo de
“fundição”, em que o autor buscou (como sempre o fez) dar a
melhor forma a suas idéias e palavras.
O resultado, forjado com a chama quente da poesia, é o que o
crítico Marco Lucchesi considera “o melhor livro de Alcides Buss”.
A
primeira parte do livro de Alcides, O
Poema, consiste em uma bela e criativa utilização do recurso da
metalinguagem, em que o autor busca, através da própria poesia,
definir o que é o poema. A diversidade das respostas apenas reflete as infinitas
possibilidades do que pode significar a poesia.
Para Alcides, entre muitas outras coisas,
“ O poema é a cinza
de
Fênix que a alma
de
alguém transforma
em
sonho e transforma
em
corpo e depois em luz. (...) ”
Na
segunda parte da obra, O Poeta,
o autor revela suas faces de leitor-poeta, com poemas que trazem referências
explícitas a autores que certamente tiveram influência decisiva na
formação literária de Alcides Buss, como Rimbaud, Baudelaire,
Mallarmé, Fernando Pessoa, Drummond, Leminski, Neruda, Ezra Pound e
Emily Dickynson, esta última citada no poema seguinte:
“
Para formar uma campina – só poesia –
coloque-se um poema
de Emily Dickynson
na
retina, (...) ”
Alcides
Buss termina o livro com as três elegias prometidas no título, a
começar pela Elegia da Infância Perdida, um belo e longo poema, talvez um dos
melhores de toda a obra, que o autor resolveu estruturar em duas
partes: “Coração Singular”, que se subdivide em sete partes, e
“Coração Plural”.
O livro segue com a Elegia
para Lindolf Bell, o grande poeta catarinense falecido no ano
passado. No poema,
predominam metáforas de elementos da natureza, essa natureza que
tanto Bell quanto Alcides souberam valorizar e defender através da
poesia.
Para finalizar, o poeta apresenta a Elegia
Pataxó, uma homenagem ao índio Galdino, que morreu, anos atrás,
vítima de queimaduras sofridas depois de uma “brincadeira” de
jovens inconseqüentes. Irônico
fim, que ilustra um episódio em que as cinzas, resultantes de um
processo de destruição, fazem um enorme contraste com as
“cinzas” poéticas de Alcides Buss, estas sim, fruto de um
processo criativo e de renovação da poesia.
A Cinza
de Fênix já foi lançada sobre o papel.
Cabe, agora, ao leitor sensível e criativo, fazer esse pássaro
de fogo renascer das próprias cinzas e voar com liberdade em um céu
que não é só cinza, mas
policromático, carregado de múltiplos significados.
XX
O
poeta não termina
o seu poema – o interrompe
apenas.
Se publica,
é pra livrar-se dele.
O
poeta se
imagina:
a imagem o recrimina.
Mário
Quintana vai ao céu
e volta num segundo
-
tem leitres no além.
Para
a alma, melhor
poesia alguma
que nenhuma.
Ao
anjos dizem amém.
XXIV
O
poema reluta.
Quer ser – e não quer:
Escolhe o poeta;
escolhe o momento.
Recua. No limbo
insondável, pondera.
Retorna mais tarde,
já outro – nem sempre.
Com força, derrama
o sentido. Se vire
o poeta.
(Alcides
Buss em Cinza de Fênix & três elegias)
Buss,
Alcides.Cinza de Fênix & três elegias.
Florianópolis, Editora Insular, 2000.

O
Poeta
-Trajetória
poética
Alcides Buss estreou na poesia aos
20 anos, em 1970, com o livro Círculo Quadrado. No
ano seguinte publica O
bolso ou a vida?, livro que obteve o primeiro lugar no I
Festival Catarinense de Poesia Universitária, promovido pelo Diretório
Central dos Estudantes da UFSC. Embora
marquem ainda uma fase de aprendizagem do autor, os dois primeiros
livros já esboçam traços que irão caracterizar sua obra futura: o
cuidado com a forma, a consciência do poder expressivo da palavra, e
a abordagem de temas como a ambigüidade da vida e o amor.
Com o livro Ahsim, de 1976, o autor
intensifica as experimentações formais iniciadas no livro anterior,
que reflete as tendências do Concretismo e da geração modernista de
45. Ahsim
é marcado pela recriação da linguagem e ruptura com os padrões
tradicionais, e influenciado
pela antropofagia de Raul Bopp, autor do poema Cobra Norato, que seria
tema de um estudo teórico que Alcides publicaria em 1982:
Cobra Norato e a especificidade da linguagem poética.
O
tema do amor é abordado com maior profundidade no livro O
Homem e a
Mulher,
de 1980. No livro
seguinte, O homem sem o homem, de
1982, temos o poeta compromissado com a realidade social em que está
inserido. Através da
poesia, Alcides Buss denuncia um mundo em que os homens estão cada
vez mais fechados em relação a si mesmos, e levanta uma voz contra o
amesquinhamento das relações humanas e o distanciamento do homem em
relação a seu próximo.
Com os dois livros seguintes, Pessoa
que finge a dor, de 1985, e Segunda
pessoa, de 1987, Alcides Buss mostra que não está só
preocupado em fazer poesia, mas também em melhor divulgá-la, e dá
início, através dos dois volumes, ao projeto Movimento de Ação do
Livro. Através dele,
parte da tiragem da obra é destinada à circulação livre e popular.
O leitor é estimulado a, depois de ler o livro, passá-lo
adiante. Dessa forma,
multiplica-se o número de leitores de um mesmo livro, que deixa de
ser um mero objeto decorativo e passa a ser um produto cultural mais
dinâmico.
Transação,
de 1988, nas palavras do crítico Antônio Hohlfeldt, é “uma espécie
de síntese e resumo das diferentes linhas até então desenvolvidas
pela poesia de Buss”, ao mesmo tempo em que apresenta a proposta de
fazer uma “releitura dos poetas de maior afeição por parte do
autor, mediante sua recriação e atualização”.
Em 1990
é lançado o livro Contemplação
do Amor, que reúne os melhores trabalhos do poeta desde seu
primeiro livro até Transação. Depois
da coletânea, o autor lança ainda o livro Poesia
do ABC, dirigido a crianças, Natural,
Afetivo, Frágil (1992), Nenhum
Milagre (1993) e Sinais/Sentidos
(1995), este último um trabalho mais denso que representa um salto
qualitativo no trabalho do poeta.
-Biografia
Alcides Buss nasceu no município de Salete (SC), em 1948. No ano seguinte a família se muda para Trombudo Central, e
em 1955 para Medianeira, oeste paranaense, onde o futuro poeta inicia
seus estudos. Em 1961,
Alcides parte sozinho para a cidade de Taió, novamente em terras
catarinenses, desta vez para cumprir o destino traçado principalmente
pela família: ser padre. No
seminário, tira proveito de sua altura para destacar-se como goleiro
da turma, e de sua já inquieta criatividade para desenhar.
E é no rabiscar do lápis sobre o papel que começa a
descobrir o gosto pela poesia.
Certamente não era para ser padre que
Alcides Buss veio ao mundo. Deixando
o seminário em 1963, completa o ginásio em Cascavel (PR), e em 1967
segue para Joinville para continuar seus estudos.
No ano seguinte cumpre serviço militar, período em que produz
dezenas de poemas, que mais tarde queimará.
A destruição de seus primeiros escritos, feita “não sem
alguma cerimônia” pelo autor, representa uma decisão
significativa, que irá caracterizar um poeta cada vez mais exigente
em relação à qualidade de seu trabalho.
Em
1969, quando ingressa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de
Joinville, inicia sua trajetória de agitador cultural.
Edita o jornal O Acadêmico, o suplemento D.A. Cultural, do
Jornal de Joinville, e assina a coluna de Santa Catarina do Jornal de
Letras, do Rio de Janeiro. Em
1970 publica seu primeiro livro de poemas, Círculo Quadrado.
Paralelamente
à sua carreira literária, Alcides Buss se destaca cada vez mais por
suas atividades de promoção cultural.
Atuando como diretor de cultura da Prefeitura de Joinville, na
década de 70, promoveu um trabalho de resgate da cultura popular e de
popularização das artes em geral.
Foi durante esse trabalho que ocorreu em Joinville a criação
da Feira de Arte e Artesanato, a implantação do Museu de Arte e a
instalação da Escola de Dança, entre outras realizações.
A
partir de 1976 edita a revista Cordão,
em conjunto com outros escritores joinvilenses. Em 1978, com o objetivo de difundir a poesia, lança o
“Projeto Alçapão – armadilha para o ser cair em si”, composto
basicamente de “sanfonas poéticas”.
Em 1980 transfere-se com a família para
Florianópolis, para lecionar na UFSC.
Na universidade, retoma a experiência dos varais literários,
iniciada na década de 70 em Joinville.
Em 1982, leva o Varal Literário a São Paulo, onde o mesmo
recebe divulgação nacional. A
experiência ainda lhe rende a publicação, em 1983, da Antologia
do Varal Literário, com textos selecionados pelo próprio público.
Cria em 1985 o “Movimento de Ação do
livro”, e no ano seguinte é indicado para o Conselho Editorial da
Editora da UFSC, onde coordena a coleção “Ipsis Litteris”,
destinada à criação literária.
Em 1988 assume a chefia do Departamento de Língua e Literatura
Vernáculas do Centro de Comunicação e Expressão da UFSC.
Em 1990 recebe o prêmio “Revelação” da
Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro A Poesia do ABC. Participa
nesse ano da coletânea Poetas
Contemporâneos Brasileiros, da editora gaúcha Garatuja.
A partir de 1991 assume a diretoria executiva da Editora da
UFSC.
Em 1993 é eleito presidente da Associação
Brasileira de Editoras Universitárias, criando uma rede nacional para
distribuição e comercialização de edições acadêmicas.
Em 1995 recebe da União Brasileira de Escritores do Rio de
Janeiro a medalha de mérito cultural “Caio Prado Júnior” e, em
1997, a medalha “Manuel Bandeira”, pelo conjunto da obra.
Em 1998 recebe a Medalha Odilon Lunardelli de Mérito Livreiro.
Atualmente Alcides Buss é editor-executivo da
Editora da UFSC. Até recentemente era
presidente da União Brasileira de Escritores de Santa
Catarina.
Nota
dos editores:
Colaboração de Alexsander de Oliveira
- correspondente de PALAVRARTE em Santa Catarina.
 
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