Suzana Vargas
Suzana Vargas é poeta, autora de
literatura infanto-juvenil, ensaísta e professora de
literatura. É também pesquisadora da Biblioteca
Nacional e co-editora da Revista Poesia Sempre.
Em 1996, fundou a Estação das Letras, espaço
que se destina à realização de cursos e oficinas na
área de Literatura e à produção de eventos de
leitura, seminários e palestras. Idealizou e coordena as
Rodas de Leitura no Centro Cultural Banco do
Brasil.
Cronologia
/ Biografia
1955
Nasce na cidade de Alegrete (RS)
indo morar em Quaraí, pequena cidade na
fronteira com o Uruguai. Ali realiza estudos
primários e secundários.
1973 Conclui a Escola Normal e casa-se,
transferindo- se para o Rio de Janeiro.
1973/79 Inicia e conclui a Faculdade de
Letras - UFRJ Neste período nascem suas
filhas,Daniela (1976) e Ana Paula (1979). Leciona
português e literatura em vários níveis escolares.
Participa da antologia Universitários: Verso e
Prosa. Publica seu primeiro livro de poemas, Por
um pouco mais (1979).
1980
Inicia o Mestrado em Teoria Literária na
UFRJ.
1983 Leciona em várias universidades e
escolas. Trabalha no projeto Clubes de leitura
Programa de Desenvolvimento do Livro
(PRODELivro-MEC) . Publica Sem Recreio,
poemas.
1984
Publica Sempre Noiva, poemas.
Continua lecionando. Trabalha como tradutora e
revisora na área de editoração.
1985 Publica Doce de Casa, seu
primeiro livro de poemas infantis. O livro alcança
várias reedições. Inicia seu trabalho com oficinas
de poesia na Oficina Literária Afrânio
CoutinhoOLAC . Esse trabalho,posteriormente,
terá vários desdobramentos.
1987
Publica Será sonho, Frederico?
história infantil em versos.
1988
Defende sua tese de Mestrado, Leitura: uma
aprendizagem de prazer, na Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Trabalha na Fundação do Livro
Infantil
e Juvenil e, logo a seguir, na EMBRAFILME, como redatora.
1990
Publica Sombras Chinesas, poemas e
dois livros infantis ilustrados por Mariana
Massarani: -Cochicho, com partituras
musicais de Camilo Attié ;
De olho no piolho, história em
versos.
Além das aulas, trabalha na Fundação Cinema
Brasileiro.
1991
Trabalha na Fundação Biblioteca Nacional, no
Departamento Nacional do Livro como gerente do
projeto Teatro do texto leituras
dramatizadas de autores brasileiros. Nessa época,
começa a viajar pelo país com suas oficinas de
leitura e de poesia.
1992
Trabalha no Sistema Nacional de Bibliotecas e
inicia sua participação como editora-adjunta da
Revista Poesia Sempre.
É contratada pelo Colégio de Aplicação do Rio de
Janeiro (CAP). Inicia um trabalho de oficinas de
leitura no Centro Cultural Banco do Brasil. Deixa a
Faculdade da Cidade.
1993
Início do projeto Rodas de Leitura que
idealizou e coordena com sucesso de mídia e de
público no Centro Cultural Banco do Brasil no Rio de
Janeiro. Lançamento do ensaio Leitura: uma
aprendizagem de prazer, que alcança várias
edições e é indicado como um dos três melhores
ensaios sobre leitura do ano pelo IBBY. Lança
também o livro infantil O mistério de Nina.
1994
É convidada pela Haus der Kulturen der Welt
para participar de Literatura Brasileira: uma
viagem sem fim, com poemas traduzidos. Viaja por
cidades alemãs, lendo seus poemas e
conversando com o público nas atividades que
preparam a Feira de Frankfurt onde o Brasil é o
tema.
1995
Lança O livro dos quase-amores,
livro que tem Quaraí,sua terra natal, como
palco dos acontecimentos. Colabora no suplemento Idéias
(JB) e Prosa e Verso (O Globo).
1996
Cria a Estação das Letras, oficinas
de leitura e escrita, produtora e espaço de cursos e
oficinas nas áreas de Literatura e Artes. Trabalha,
além do Centro Cultural Banco do Brasil, com outros
parceiros para projetos tais como : Secretaria
Municipal de Cultura, FAGGA Eventos, IBM, Museu da
República, Museu Histórico Nacional, Editora
Record, Nova Fronteira e outros. Nesse espaço
lecionam os mais conceituados escritores e
professores do Rio de Janeiro. Recebe da UBE (União
Brasileira dos Escritores) o Diploma de Mérito
Cultural por seu trabalho na comunidade.
1997
Idealiza e produz o I Encontro Bienal Rio de
Profissionais do Ensino para a Bienal do Livro.
Lança Caderno de Outono e outros poemas,
indicado para o prêmio Jabuti 1998. Organiza o I
Encontro com a Literatura Hispano Americana
Contemporânea com convidados como: Ricardo Piglia,
Gonzalo Rojas e Zoé Valdes.
1998
Sai a 2a edição de Caderno de Outono
e o livro infanto-juvenil escrito em parceria com
Roseana Murray, Porta a Porta. Participa do
PROLER Programa de Leitura da Fundação
Biblioteca Nacional.
1999 Idealiza e produz o II Encontro de
Profissionais de Ensino para a Bienal do Livro do Rio
de Janeiro. Idealiza e produz o evento Informes
de Borges, para o Centro Cultural Banco do
Brasil, trazendo ao Brasil Maria Kodama e Alberto
Manguel, entre outros. Inicia seu trabalho de
curadoria e produção de eventos em outros estados
como São Paulo e Brasília.
Obra
Poesia
Por
um pouco mais. Rio de Janeiro. Tempo
Brasileiro, 1979.
Sem
recreio. Rio de Janeiro. Achiamé, 1983.
Sempre-noiva.
Rio de Janeiro. Achiamé, 1984.
Sombras
chinesas.
São Paulo. Massao Ohno, 1990.
Caderno
de Outono e outros poemas. Rio Grande do
Sul. Edunise, 1997.
Literatura
Infantil
Será
sonho, Frederico? Rio de Janeiro.
Orientação Cultural, 1987.
Doce
de casa. 2a ed. Rio de Janeiro. Record,
1988.
De
olho no piolho.
Orientação Cultural,
1990.
Cochicho.
4a ed. Rio de Janeiro. José Olympio, 1995.
O
mistério de nina. Rio de Janeiro.
Imago, 1993.
Doce
de casa.
2a ed. Rio de Janeiro. José
Olympio, 1995.
O
livro dos quase-amores. São Paulo. FTD/
Quinteto, 1995.
Porta
a porta
correspondência. São
Paulo. Saraiva, 1998.
Ensaio
Leitura:
uma aprendizagem de prazer. 3a ed. Rio
de Janeiro. José Olympio, 1997.
O
que diz a crítica
-
Suzana
consegue dar o seu recado sem recursos
extremos, sem apelação. Ao mesmo tempo
profundos e extremamente simples, na forma
como se apresentam aos olhos dos leitores, os
poemas de Suzana deixam um travo amargo, mas
não são desligados de uma esperança que se
projeta para além da revolta, como observou,
muito sagazmente, Astrid Cabral.
(
Reinaldo Valinho Alvarez,
sobre Sem Recreio, no Jornal
de Letras 1983)
-
Estreante
de 1979, com o volume Por um pouco mais,
Suzana Vargas passou das anotações
líricas desprovidas de marcas registradas,
espécie de caderno secreto de poeta jovem
conforme a crítica rigorosa de
Maurício Salles para uma poesia
madura, burilada, consciente. Traz-nos agora
uma dicção reveladora do feminino
que a coloca de imediato ao lado de uma
Adélia Prado, uma Olga Savary, uma Lélia
Coelho Frota e uma Consuelo Cunha Campos,
entre as vozes poéticas mais ponderáveis da
nova poesia brasileira escrita por
mulheres.
(Antônio Alvarez sobre Sem
Recreio no Jornal O Globo
1983)
-
Suzana
Vargas não parece buscar a fama a todo
custo.Sob esse aspecto nos lembra Emily
Dickinson quando escreveu: Se a fama me
couber, não escaparei a ela se assim
for, correrei atrás dela a vida inteira
e perderei a estima de meu cachorro
portanto melhor é ficar na Ordem dos
descalços. Não se pode julgar sua
linguagem à base de postulados teóricos e
esquemas convencionais. O que se pode
afirmar é que ela dispõe de um modo de
dizer novo. Não de um a priori
formal a ser aplicado a todos os poemas. Não
é maneirista ao modo de outro ou de seu
próprio modo. Em sua língua poética há
uma forma de dizer aplicável a cada
objeto.
(sobre Caderno de outono,
César Leal
no jornal Diário de Pernambuco
1997)
-
(...)
Octavio Paz percebeu que, na América,
a poesia começou a falar com a voz feminina
de Sor Joana Inês de la Cruz. E acrescentou:
Com uma espécie de regularidade
astronômica, da Argentina ao Canadá, em
todas as línguas de nosso continente
aparecem de tempo em tempo certos nomes que
são verdadeiros centros de gravitação
poética: Emily Dickinson, Marianne Moore,
Gabriela Mistral, Elizabeth Bishop. Cada uma
delas distinta, inconfundível, única.
No Brasil, só tardiamente, no final dos anos
60, as mulheres ocuparam o centro de nosso
palco lírico pense-se em Ana Cristina
César, Adélia Prado e Astrid Cabral, entre
tantas outras. Mas aquela tendência à
distinção e à originalidade se afirmou de
maneira radical. Para confirmá-lo, basta ler
o trabalho de Suzana Vargas que, com seu novo
livro, Caderno de outono e outros poemas, se
impõe com a força das evidências.
Além
de aprofundar sua mitologia, Suzana Vargas
logrou construir uma linguagem que a revela
em cada verso. Já nos primeiros livros, como
Sem recreio (1983) e Sempre-noiva
(1984), sentia-se a luta pela expressão
própria, capaz de transmitir fundas
experiências sem naufragar no patetismo
romântico nem num feminismo de superfície.
Por isso, talvez, a escritora tenha
apresentado tantas poéticas. Numa delas, Chopin,
a diferença entre a carne da palavra
dolorosa, fruto da vivência, e a delicadeza
embriagadora do conto, revela energia
intelectual e consciência do trabalho
poético: Não canto / escrevo / imito
gorjeios / mais agudos e graves/ que os que
ouço // misturados ao ritmo / do que vivo.
Entretanto e paradoxalmente, a excelência de
Caderno de outono é ao mesmo tempo
provável e surpreendente. Provável porque o
comprometimento com a busca da expressão
própria era gritante nos livros anteriores,
mas surpreendente porque Suzana Vargas
atingiu um grau de personalidade e correção
expressiva que deixam desconcertado mesmo seu
mais assíduo leitor. Há nesses poemas o
sopro clássico, a radicalidade da economia,
o milagre da palavra exata e o despojamento
da beleza irrefutável. A autenticidade do
livro provém da união milagrosa de dois
triunfos: a maturação de uma mitologia
poética (temas, idéias, tratamento) e a
conquista da linguagem. Ouvimos, com toda a
clareza, uma voz, uma voz, uma fala, uma
dicção, em tudo distintas,
inconfundíveis, únicas.
O mesmo
Octavio Paz reconhecia em Elizabeth Bishop a
arte da reticência. Suzana Vargas modula
sistematicamente reticências e elipses. Em
muitos de seus poemas temos um núcleo
dramático, mas ele não aparece sequer nas
entrelinhas. É extirpado do texto e o leitor
deve intuí-lo, se quiser chegar à
experiência lírica. Já o primeiro poema, Secreta,
nos descreve a paisagem, nos apresenta
dramatis personae, mas fecha-se na mudez da
natureza. Ajusta-se à estratégia poética
de Suzana Vargas o que Walter Benjamin
escreveu sobre o surrealismo: Pois de
nada nos adianta sublinhar fanática ou
pateticamente o lado enigmático do enigma;
muito pelo contrário, conseguimos penetrar
no mistério apenas no grau em que o
reencontramos no cotidiano, graças a uma
ótica dialética, que reconhece ser
impenetrável o cotidiano, e cotidiano o
impenetrável.(...)
(trecho
retirado da resenha feita por Antônio Paulo
Graça)
-
Leitura
é uma obra-ferramenta: deve ser avaliada
pela sua utilidade, pela sua produtividade.
Quantos professores pelo Brasil afora sabem
explorar com invenção um texto em sala de
aula? O livro explicita os métodos com que
realiza essa tarefa aplicando-os na análise
de textos de Rubem Fonseca e Adélia Prado. A
iniciação à poesia é outro ponto forte do
trabalho. Praticamente exilada das livrarias
e do interesse dos leitores, a poesia é
resgatada com carinho e lucidez por Suzana
Vargas, e os preconceitos do hermetismo e da
inocuidade com que os versos modernos foram
vitimados são postos por terra com
explicações acessíveis até aos mais
refratários.
(Jair Ferreira dos Santos sobre Leitura:
uma aprendizagem de prazer Jornal do
Brasil)
Depoimento
A leitura
sempre foi peça fundamental na minha vida. Primeiro,
porque havia livros na minha casa; cresci cercada por
eles. Depois, porque morava numa cidade muito pequena
do Rio Grande do Sul, onde a televisão demorou muito
a chegar. Só vim a conhecer este fenômeno da
comunicação aos dezoito anos, quando mudei para o
Rio de Janeiro.
Desse
modo, a leitura era uma forma de ocupar o tempo numa
cidade que possuía apenas um cinema, cujos filmes se
renovavam de dois em dois meses.
Eu quase
não conhecia jornais. Poucas pessoas recebiam
revistas ou outra forma impressa de informação. A
não ser pelo rádio, quase não tínhamos acesso ao
mundo que nos cercava.
Aos dez,
doze anos, eu já lia Lorca em espanhol e o D.
Quixote veio parar nas minhas mãos aos treze anos.
É claro que entendia muito pouco do universo
quixotesco, mas dava muitas gargalhadas como o
cavalheiro da Triste Figura e suas aventuras pelas
estalagens do mundo.
Vim
parar no Rio em pleno 1973, quase sem informação
sobre o que de fato era o Brasil na época. A
megacidade e a televisão colorida tomaram conta de
mim por algum tempo. Mas se pouco sabia sobre o nosso
contexto político e econômico, bastou um ano ou
pouco mais para me adaptar e para compreender a dura
realidade que vivíamos.
E a que
devo esta facilidade de adaptação a esse país que
desconhecia? À leitura, sem dúvida. Porque mesmo
com a cabeça entregue à literatura, eu já havia
sido beneficiada pela agilidade de raciocínio, pela
capacidade de associar fenômenos distanciados no
espaço que a leitura dá aos indivíduos.
Depois,foi
só me acostumar à nova cidade e suas manhas. Me
acostumar às outras formas de lazer que me foram
presenteadas pelo Rio, entre elas, a praia. Ao jeito
carioca de ser, um jeito que arremedo mal e que às
vezes admiro, às vezes não.
Mas a
adaptação foi relativamente fácil. E se dediquei
minha vida e profissão a trabalhar em prol da
leitura,não foi à toa. Foi por compreender na pele
o que ela representa no meu mundo, que é o da
escrita, das aulas que dou, dos programas de leitura
que desenvolvo. E mais ainda: por compreender a
leitura como terapia, como companhia, como criação.
(Extraído da Folha da Leitura, número 4,
1996.)
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