Poema inédito de Moacyr Félix


 

 

Escutando a minha morte também 

                                            Moacyr Félix   

Um, dois, três.
A noite está alta.
Três, quatro, cinco.
A noite está vertical
e a lua começou
a embalançar-se
a embalançar-me.
quatro, cinco, seis.
Cadê a noite, cadê?
Dentro de mim 
cadê a lua, cadê
Sete, oito, nove.
Preciso sair de dentro
de mim, de mim, de mim,
rumo ao retorno ao que é
raiz de todas as horas
Dez, onze, doze.
Só encontro treva.
Agora, só treva,
infinita treva.
E dentro dela eu
- solidão livre
e presa por uma luz
a alongar-me em estiletes
cada vez mais afiados
no Ser e no Corpo
de todo espaço-tempo
do que é a História
de cada um e de todos
nos agoras e nos passados
do existir do Homem
(do qual, aliás, vou
agora, agora, agora
caindo, saindo
como a folha que o vento
com asa bocas da solidão
assopra e desprega
da copa das árvores
para o chão sem Verde
em que se enTERRA
tudo o que é morto).
Enfim, até que enfim
um minuto abriu-me 
como um raio
num dos meus mergulhos
e quedas. E no sangue
das veias da Noite,
achei a minha noite,
a minha,
e dentro dela eu
aprendendo, aprendendo
a ver, a ver, a ver
como quem se sente
acima das conceituações
e nos alongamentos
de poemas feitos por
dor, solidão e tristeza
nas velocidades ininterruptas
do tempo nas infinitas 
formações do que é o Destino
no passado, no presente e no porvir
dos bilhões e bilhões
de rostos humanos
que existiram, existem
e existirão além
deste meu eu nos horizontes
do que é no Cosmo a Vida
do Ser Humano,
que ainda não sabemos 
inteiro em sua Verdade
porque ela ainda não foi
conquistada história.
E a saberemos um dia?
Isso eu não sei, embora
em minha dolorosa
Utopia eu a queira
tanto, e tanto, e tanto.
O que eu sei é que
jamais a viverei. E por isso
em minha velhice
há momentos como este
em que escuto também
a Morte a abrir
minhas portas vivas e
cansadas, cansadas
de ver passar por elas 
minha esperança de pé
no centro dos olhos
das luzes da lua,
minha lua
em busca de um sol
que não chega a trazer
definidoramente a minha
tão esperada aurora
Sim, volta e meio escuto
também a Morte a abrir
minhas portas cansadas...
E o que eu peço aos que ficam
que continuem a se procurarem
- a si próprios e ao mundo –
bem no centro dos olhos
das luzes vivas da lua
que dentro da noite acharam
e puderam desanuviar
nas suas lutas contra as trevas
dos poderes que alienam 
e escurecem a Vida
do nosso coração e do nosso cérebro
nos cotidianos das coronárias 
da história.