|
A
PALAVRA JÁ MORREU?
Já fazem
quase trinta anos que decretaram a morte da palavra. Como se
arrancada do
cárcere e sacrificada.
Diante da estultice, do descalabro e, principalmente, da mordaça,
é claro que a palavra se casamateia. Mas, como todo ato criador, se
multiplica em formas e transformações.
E tem sido assim através dos séculos e gerações, desde que
o homem é homem. Em tempos de exceção, mudam-se as sementes e
a cara dos frutos.
À
morte pelo silêncio se opõe a luz pelo silêncio. O que não pode
ser claro, se modifica. Transformado, se faz nova forma: vária-forma
(nunca fôrma).
Talvez
a palavra escrita tenha ficado enclausurada em alguma ditadura, da
palavra, mas mil outras palavrações abriram asas para traduzir
dores, ânsias, angústias e repressões.
A pintura, nas telas, nas paredes, na
vida e nos out-doors; a música, o teatro; a filosofia das
academias, dos bares, dos anfiteatros e das entrelinhas; a indignação
transformada em diálogo, panfletos, falar sozinho... São
palavras-aves, arrimação com ou sem rima.
A arte em momentos de pobreza,
principalmente de espírito, é bicho no casulo que breve será
seda, mariposa; continente e conteúdo. É borboleta só,
mutante, larva de borboleta-multidão, asas da imaginação, apesar
dos alfinetes que tentam transformá-la em asas espetadas.
Não há como prender a arte. Não há como impedir o sonho e a imaginação
humana e isso são formas de palavra, a palavra de dentro, que ninguém
consegue calar.
É palavrar-se, é palavrarte.
Ivan Wrigg Moraes
|