Editorial 2- Ivan Wrigg Moraes


                              

                         A PALAVRA JÁ MORREU? 
 
    

   Já fazem quase trinta anos que decretaram a morte da palavra. Como se  arrancada do  cárcere e sacrificada.
     Diante da estultice, do descalabro e, principalmente, da mordaça, é claro que a palavra se casamateia. Mas, como todo ato criador, se multiplica em formas e transformações. 
     E tem sido assim através dos séculos e gerações, desde que o homem é homem. Em tempos de exceção, mudam-se as sementes e a cara dos frutos.
   
À morte pelo silêncio se opõe a luz pelo silêncio. O que não pode ser claro, se modifica. Transformado, se faz nova forma: vária-forma (nunca fôrma).
     Tal
vez a palavra escrita tenha ficado enclausurada em alguma ditadura, da palavra, mas mil outras palavrações abriram asas para traduzir dores, ânsias, angústias e repressões.
    
A pintura, nas telas, nas paredes, na vida e nos out-doors; a música, o teatro; a filosofia das academias, dos bares, dos anfiteatros e das entrelinhas; a indignação transformada em diálogo, panfletos, falar sozinho... São palavras-aves, arrimação com ou sem rima.
    
A arte em momentos de pobreza, principalmente de espírito, é bicho no casulo que breve será seda, mariposa; continente e conteúdo. É borboleta só, mutante, larva de borboleta-multidão, asas da imaginação, apesar dos alfinetes que tentam transformá-la  em asas espetadas.
     Não há como prender a arte. Não há como impedir o sonho e a imaginação humana e isso são formas de palavra, a palavra de dentro, que ninguém consegue calar. 

    
É palavrar-se, é palavrarte.

                                                                    Ivan Wrigg Moraes