Um poeta sempre comprometido com os direitos humanos
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Moacyr Félix mantém em seu novo livro o discurso de luta social

*Cláudio Murilo Leal


        

     Moacyr Félix impõe seu nome como um dos mais significativos poetas brasileiros contemporâneos ao publicar, em 1998, Singular Plural (Record) e Introdução a  escombros ( Bertrand Brasil, com o apoio da Biblioteca Nacional). Este último livro confirma a  biografia e a trajetória de Moacyr, construída sob a inspiração de um pensamento comprometido com a defesa dos direitos do Homem e a justiça social. Formalmente, Moacyr Félix sempre se revelou um adepto do verso livre, discursivo, cadenciado em largos haustos, grandiloqüente e inflamado. Como se pode inferir dessa postura social e dessa eleição estilística, ele caminha na direção oposta às tendências da moda poética desta década, caracterizada pela alienação política, pelos bizantinismos de linguagem, pelo poema minimalista, contrafação do poema do poema minuto modernista, mas elaborado, hoje, num tom de pedante chinesice artesanal. Década de poetas de chute curto, como disse Drummond da Geração de 45, de poemas anêmicos, de hermetismo oco.

Poesia como mensagem a ser transmitida ao mundo

      Moacyr Félix se insere se na vertente dos poetas que não amputaram o conteúdo de  seus poemas mas, ao contrário, se orgulham de possuir uma mensagem a ser transmitida aos homens e ao mundo, assim como Walt Whitman, Maiakovski, Pablo Neruda e Allen Ginsberg, que propugnaram por dar um sentido mais solidário às palavras da tribo: Introdução a escombros não é, no entanto, um livro panfletário, subordinado à estridência dos comícios e à lavagem cerebral das palavras de ordem e dos lugares comuns, marca registrada dos poetas movidos apenas pelo engajamento social. Nos poemas de Moacyr, as indagações metafísicas sobre o Ser e o Mundo são a sua própria contrapartida à dialética do pensamento socialista. A morte, as angústias existenciais, as incertezas do amor são temas que convivem com as estatísticas que relembram ao leitor o que já  saíra nas efêmeras páginas dos jornais: Cerca de 23,65% da população brasileira vive com US$ 1 ou menos por dia. O poeta vê o Homem como um todo: indivíduo e ente social. Aí reside a grandeza da obra de quem, aos 72 anos, vibra com um coração de jovem embriagado pela utopia. Mas sobre o que fala Moacyr Félix? Os temas são aqueles intensamente vivenciados pelo ser humano em geral: a velhice (“os súbitos vazios  e a tristeza”) arquitetados pelo tempo em mim”), a liberdade e a repressão, o amor, a exploração do homem pelo sistema do mercado global.

Iluminações metafóricas eletrizam a linguagem

      No entanto, é na especial relação das palavras entre si, uma espécie de sintaxe privilegiada na economia verbal do poema, nas iluminações metafóricas disparadas por inusitados sintagmas (neste último inverno ou escalar o corpo dos horizontes enforcados) que uma alta voltagem poética eletriza a linguagem do poema. Não sei se a poesia de amanhã voltará a  dizer , no sentido de manter algum compromisso com a mensagem, ou se continuará a traçar arabescos na folha em branco, tentando compor uma sinfonia sem sentido ou um poema escrito por um idiota cheio de som e fúria. Moacyr Félix, pelo menos, quer se fazer entender, mas sem vulgarização dos valores estéticos que norteiam a sua arte poética. A ponte para este projeto é o poema que significa o oposto daquele que, na visão retificadora dos concretistas e epígonos, torna-se apenas um objeto vazio de sentido.

Introdução a Escombros de Moacyr Félix. Editora Bertrand do Brasil, 201 páginas.

 

 Por Introdução a Escombros, Moacyr Félix recebeu o prêmio do Pen Clube do Brasil , com expressiva votação (mais de 90%), o prêmio Jabuti e o prêmio Olavo Bilac ,da Academia Brasileira de Letras, em 2000.


     

Entrega do prêmio Poesia e Liberdade ao poeta Moacyr Félix, pelo então Presidente da República, José Sarney, no auditório do Centro Alceu de Amoroso Lima, em 1985. Da esquerda para a direita : o Presidente José Sarney, Cândido Mendes de Almeida, Sobral Pinto, Bresser Pereira, Darcy Ribeiro e Austragésilo de Athayde.


 *Cláudio Murilo Leal é poeta e Professor de Literatura Hispano- americana  da Faculdade de Letras da UFRJ. Foi adido cultural do  Brasil em Madri durante sete anos e diretor do Museu da Imagem e do Som. Além disso, concluíu  cursos  de doutorado pelas Universidades de Essex-Inglaterra e Complutense de Madri.