Álibis _ Gilberto Mendonça Teles
                                                                                        por Bel Borja

         Uma vez que mesmo os melhores poetas contemporâneos são freqüentemente desconhecidos da maioria do público, caberá talvez esclarecer que Gilberto Mendonça Teles é poeta, ensaísta, professor universitário e atual candidato à cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras, vaga aberta com a morte de Afrânio Coutinho. Álibis é seu décimo sexto livro de poesias e, reunindo uma grande diversidade de formas poéticas, constitui-se em excelente amostra de sua versatilidade e habilidade técnica.
        O livro organiza-se em quatro partes: Opó-rapá-cupú-lopó, cuja temática gira em torno da própria poesia, Alibidinoso, onde domina o tema amoroso, Poemas da Bretanha – um passeio por signos da história e da mitologia da Bretanha francesa por meio do qual o autor cria,  ou revela, uma identidade poética entre a Bretanha e o Brasil –, e um curioso anexo onde figura o manifesto “Etceterismo”, atribuído em nota de rodapé a um desconhecido “Grupo Alfa, Beta, Gama, Etc”. Esse anexo merecerá especial atenção do leitor, sobretudo se considerar que vem das mãos de um respeitado e erudito teórico da literatura. Nele, Mendonça Teles, ou o obscuro grupo a que é atribuído, desfila verbetes que desvendam igrejinhas e modismos literários com ironia e louvável desassombro.
      De fato, o dito manifesto vem muito a calhar não só com o momento intelectual que vivemos, mas com o próprio livro, fruto maduro de um longo e profundo estudo da linguagem poética. Em Álibis, Mendonça Teles não rejeita nenhum recurso, não descarta qualquer estrutura, clássica ou moderna, mas busca em cada qual a expressão mais acabada para o poema. Do soneto à poesia visual, da redondilha à prosa poética, tudo encontra seu lugar. Há, sem dúvida, um tanto de hermetismo, referências a autores e obras que nem sempre serão conhecidos do leitor e discussões metalingüísticas – tema central da poética de Mendonça Teles – que poderão parecer menos atraentes a quem não tem o hábito ou o interesse de refletir sobre a linguagem. Mas há também coisas de aparência simples, sabor familiar e assimilação fácil, sem deixarem de ser igualmente complexas em seu processo de construção. Num ou noutro caso, a compreensão da poesia como um “jogo com as palavras (que) nos ensina a jogar com o mundo”* é a tônica.
      Seja qual for o assunto tratado, é no jogo da linguagem, na busca do nome, que ele encontra sua expressão. Ainda na primeira parte da obra, os versos de “Poiética” surgem como declaração de intenções:
 

“Tudo em mim é desejo de linguagem:
             minha própria emoção, esta passagem

à espessura das coisas, este convite
            ao mais além da sombra e do limite
            e esta confirmação da realidade
            na plumagem dos nomes, na verdade,
 

têm seu lado e segredo, é pura essência
            do que se fez silêncio e reticência. 

                            (...)” 

   Ainda que em alguns momentos a fala acadêmica possa ferir levemente a naturalidade do jogo poético, a combinação entre um seguro conhecimento dos tradicionais recursos poéticos e a distensão da cadeia em que esse mesmo conhecimento pode aprisionar a poesia está, sem dúvida, entre as grandes virtudes do livro. Talvez a melhor prova de que habilidade técnica não faz mal a ninguém e pode fazer muito bem à poesia encontre-se no fato de que os sonetos, com sua rigidez formal, estão certamente entre o que há de mais fácil e escorreito em Álibis, como o belíssimo “A Falta”.
    Em síntese, Gilberto Mendonça Teles utiliza a perícia na construção de formas e ritmos a favor da imagem poética, aquela em que forma e conteúdo não se dissociam, porque são o mesmo, onde ocorre a magia da palavra insubstituível, capaz de tornar presentes idéias, sentimentos e sensações e jogar o leitor para fora da lógica estabelecida.  E não será demais lembrar, aqui, o significado da palavra latina “alibi”, outro lugar. No caso, o lugar das infinitas possibilidades da linguagem.   

Teles, Gilberto Mendonça. Álibis. Rio de Janeiro, Sucesso Pocket, 2000. (110 p.) 


* Gilberto Mendonça Teles em entrevista publicada no livro Gilberto: 40 anos de poesia ( Rio de Janeiro;PUC/Edições Galo Branco,1999.).


Dessa entrevista extraímos significativa fala do autor sobre o fazer poético:    

A poesia mostra ao homem outros sentidos da existência, integra-o na plenitude da sua cultura, dá ênfase ao visível  e escancara as janelas do invisível, amplia portanto o seu universo e lhe restitui a ilusão de sua divindade, uma vez que lhe dá o poder da criação através da linguagem. Ela tem a força natural dos álibis - que apontam para um e, ao mesmo tempo, para outro lugar, quase sempre utópico; e tem, como a Sibila o poder encantatório de nos fazer jogar com o sobrenatural. É por isso que os tiranos de todos os tempos e lugares temem os poetas e a poesia. E não é à toa que para Hölderlin ela é ao mesmo tempo a mais inocente das ocupações e o mais perigoso de todos os bens.   

 Gilberto Mendonça Teles                                                      

 

 

 

 

Bel Borja

    Maria Isabel Borja é carioca, flamenguista e mangueirense, mestre  em Literatura pela PUC/RJ, com dissertação  em Literatura Portuguesa - Crônicas de Fernão Lopes, e poetisa (assim mesmo no feminino e sem nenhuma vergonha).  
 Redatora e editora, tem  escritório no Jardim Botânico onde trabalha para a Liberal Asset Management e para a Editora Expressão e Cultura, entre outros.
    Publicou A dama e os vagabundos, coletânea de poemas, no final de 1997, pela extinta editora Grifo.