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Há um
homem chorando na Rua Piauí, mas o que pode a Rua Piauí
num mundo onde irmãos matam irmãos, onde a morte chega
nos foguetes e na garganta (que não sabe nenhuma
canção) dos tanques de guerra?
Há
um homem chorando em Belo Horizonte, mas o que pode Belo
Horizonte num mundo onde balas extraviadas matam
crianças?
Há
um homem chorando em Minas, mas o que pode Minas para
melhorar o mundo?
Há
um homem chorando no Brasil, mas o que pode o Brasil para
pôr uma canção na boca dos fuzis, das metralhadoras e
das escopetas?
Há um homem chorando na América do Sul, mas o que pode
a América do Sul contra as lágrimas?
Que fizeram ao homem que está chorando?
Roubaram a mulher do homem que está chorando?
Prenderam numa cela com grades a liberdade do homem que
está chorando?
Seqüestraram a esperança do homem que está chorando?
Não: o homem está chorando na Rua Piauí, em Belo
Horizonte, em Minas, no Brasil e na América do Sul, por
uma razão que já não se usa mais. O homem está
chorando porque leu um poema tão bom, tão bonito, tão
urgente como a água na hora da sede, o pão na hora da
fome, a boca na hora do beijo. O homem leu o poema O
pai, do livro Textamentos, escrito por um
poeta maior, poeta raro, desses que não acontecem
sempre, de nome Affonso Romano de SantAnna, nascido
em Belo Horizonte, criado em Juiz de Fora, domiciliado no
Rio de Janeiro.
No que começou a ler, o homem pensou:
-Ah, esse pai não é
apenas seu, Affonso, esse pai é meu, esse pai é da Rua
Piauí, é de Belo Horizonte, é de Minas, e do Brasil,
é da América do Sul.
-Esse pai, Affonso,
estava escondido dentro do meu peito como um passageiro
clandestino no porão de um navio nos mares de Minas.
-Esse pai, Affonso,
com seus salmos e sua flauta domingueira, esse pai estava
em três revoluções, mesmo sendo um militar, tem um
coração civil.
_ Esse pai é pai de
todos nós, Affonso.
Os grandes poetas (vai pensando o homem que está
chorando) deviam ser exilados nas mesas dos bares, nas
coberturas dos apartamentos, na porta das fábricas, na
poltrona ao lado da bela do avião, nas ilhas desertas,
para que ficassem apenas fazendo poemas, assim como os
pássaros cantam e as borboletas voam. Sem obrigação,
por prazer, de tal maneira que nos pudessem oferecer
livros tão belos e tão fortes e tão bons quanto Textamentos, que Paulo Rocco, com sua sabedoria
de livreiro, houve por bem editar.
O homem que está chorando enxugou as lágrimas e leu
todos os poemas de Textamentos. Leu abrindo cada
página ao acaso. Leu tão empolgado que sentiu vontade
de subir no alto da Serra do Curral e declamar o poema Os
Bois, como quem reza ou faz um comício: De madrugada
matam os bois/ que comemos ao amanhecer./No entanto, eles
tinham seus projetos:comer a erva da manhã/mascar o azul
do entardecer/ e cercados de aves e borboletas/ ir
adubando o dia por nascer.
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